A. J. de O. Monteiro
No início da
década de 60 – no início mesmo – circulava um livreto da autoria de Paulo
Guilherme Martins com o título de “Um Dia Na Vida de Brasilino.” Nesse livreto
o autor narra o cotidiano de um brasileiro, do despertar ao adormecer. Começa
assim: “Não sei se você conhece Brasilino, mas isso não importa... Brasilino é
um homem qualquer, numa cidade qualquer... Situemo-lo em Santos, por exemplo. Brasilino,
como todo bom burguês, começa o dia acordando; sim, porque o operário, este,
levanta-se ainda dormindo a fim de chegar a tempo ao serviço...”
Daí pra frente
o autor vai narrando o cotidiano de Brasilino, na sequência normal de um dia
ordinário. Todas suas ações, e produtos e serviços que utiliza para atender
suas necessidades, como neste exemplo: “Brasilino acorda e aperta o botão da
campainha à cabeceira da cama, campainha essa que soa na copa; porém soa,
consumindo energia — energia que é da Light, e, assim, o Brasilino inicia o seu
dia pagando dividendos ao Capital Estrangeiro. Mas Brasilino não pensa nisso e
começa o seu dia, feliz!” E assim por diante. O texto, é claro, tem viés
nacionalista e, também, é claro, teve sua circulação proibida em março de 1964.
Mas isso é outra história... Fazendo um pequeno exercício de imaginação, posso
mentalizar Brasilino remoendo seu desprezo por esse povo que se contenta em
viver minimamente, consumindo produtos de qualidade duvidosa produzidos por
indústrias nacionais de forma quase artesanal e sem nenhuma tecnologia: “Onde
já se viu?” “Trocar meu cigarro ‘king size’, produzido pela inglesa ‘British,
American Tobacco Co. ’ por um cigarrinho de palha dos ‘mineirim’?” “Deixar de
saborear o pão francês feito com trigo canadense ou argentino (naquele tempo a
Argentina era um pedacinho da Europa no Hemisfério Sul), para me empanturrar
com beiju de tapioca?” “Ou, ainda, usar um sapato ‘Motinha’ ou ‘Samello’,
fabricados em Franca, em detrimento de um legítimo cromo alemão?” “Não, é
inconcebível renunciar a produtos que trazem em si o charme europeu e/ou a alta
tecnologia americana por “coisas” fabricadas no Brasil de maneira rudimentar e
com matéria prima de segunda qualidade e mão de obra desqualificada.
A verdade é
que eu, com nove ou dez anos de idade, àquela época, não enxergava motivação
política ou ideológica no texto. Era pra mim, então, apenas uma história
engraçada, mas que, não sei por que cargas d’água ficou na minha memória. Só
vim entender o verdadeiro sentido crítico do texto, um bom tempo depois (quem conheceu
o texto e quiser matar saudade; ou quem não conheceu e quiser conhece-lo, é só
pesquisar na internet, pelo título, que vai encontra-lo, na íntegra).