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domingo, 4 de agosto de 2019

VIRANDO LATAS



A. J. de O. Monteiro

                Ouça bem, minha senhora, não nasci na rua, nasci numa casa e, de uma ninhada de dez, fui escolhida para ali permanecer. Meus irmãos e irmãs tão logo desmamaram foram doados e minha mãe, já velha, não ficou comigo por muito tempo.  Partiu deixando para mim o lugar no coração daqueles que a amaram e dela cuidaram até o fim... Naquela casa fui criada com todos os mimos e os mesmos cuidados dedicados a ela. Ouso dizer que me tornei a alegria de todos, principalmente dos dois filhotes humanos – um macho e uma fêmea, como eu. E como todo filhote adoravam brincar. Era uma farra!
                Vivia feliz, minha senhora: comia bem; brincava o dia todo; recebia tratamento veterinário, inclusive para combater os insaciáveis carrapatos e pulgas. Não havia do que me queixar... Até um canto só meu tinha, para dormir com conforto e higiene. O ambiente era lavado diariamente e o forro que me protegia da aspereza do chão era trocado semanalmente... Como vê, minha senhora, não tinha do que queixar, muito pelo contrário...
                Mas, minha senhora, fui crescendo e passei a sentir faltar-me algo que só compreendi o que era aos poucos, quando, ouvindo os latidos vindos da rua comecei sentir falta dos meus nove irmãos e irmãs, dos quais, como lhe disse fui apartada tão cedo. Ouvia os latidos e ganidos e sentia como um chamamento deles, também sentindo saudades de mim. Saudade entristece, mas meus amigos humanos não compreendendo o motivo da minha tristeza, meu excessivo recolhimento e até minha resistência as brincadeiras com os filhotes, julgaram-me doente e me levaram ao Veterinário. Não gostava disso: era um vira prum lado; vira pro outro; apalpa aqui; apalpa ali, além das doloridas picadas das vacinas e da ingesta forçada dos horríveis vermífugos. Entendia os cuidados, mas não gostava. Toda vez que ouvia a palavra veterinário procurava me esconder... Além disso, na clínica, muitos dos meus, de variadas estirpes, ficavam engaiolados, o que me causava grande angústia e tristeza.
                Em casa, principalmente à noite, os apelos vindos das ruas só aumentavam a saudade de meus irmãos e a vontade reencontrá-los se tornava premente e isso meus queridos amigos cuidadores pareciam não compreender. Aumentavam os mimos, os cuidados, levavam-me a passear, mas nada me tirava daquele banzo. Por gratidão, mas só pro gratidão, ainda brincava com os filhotes de duas patas. À aproximação deles, latia e abanava o rabo, mas sem o vigor de antes. Ah, a saudade! – “A saudade é o pior tormento/É pior do que o esquecimento/É pior do que se entrevar...”*
                Ah, minha senhora, não me julgues ingrata, pois não sou. Certo dia, ao saírem para trabalhar, levando os pequenos para a escola, esqueceram o portão aberto e eu, com a cautela que o medo do desconhecido recomenda, transpus aquele limite e ganhei a rua sabendo o que queria, mas não o que me esperava. Saí a toda velocidade para não dar chance ao arrependimento e na expectativa de encontra-los – meus irmãos – logo adiante, pois tinha certeza que os latidos e ganidos que ouvia tão perto, eram deles. De repente beeeeee. Estanquei e vi, a poucos centímetros da minha cabeça aquele monstro de ferro parado. Pálido, tremendo e com as pernas bambas, voltei para a calçada, olhando de esguelha para o humano dentro do monstro berrando em minha direção. Mas, minha senhora, incidentes como esses chamam a atenção, e, tanto quanto os humanos nós, caninos somos curiosos e logo me vi cercado por um grande número de semelhantes – digo semelhantes por sermos da mesma espécie, mas havia cães de todos os tamanhos e de variadas pelagens tanto em tamanho e espessura quanto em coloração. Ansioso procurei identificar entre eles um dos meus irmãos ou, até mesmo, um parente mais distante, mas nenhum deles apresentava nossas características familiares.