quarta-feira, 16 de março de 2016

CARTA ABERTA PARA LYGIA FAGUNDES TELLES*


Lygia,
Imagino que você deva receber muitas cartas de seus leitores, eu sou apenas mais um. Espero que essa carta chegue às suas mãos e que você ao menos por um instante saiba que eu existo e que amo tudo que você representa. Tenho 30 anos, sou jornalista e escrevo pra me libertar. Escrevo desde que me lembro de sabê-lo, mas tenho dificuldade de me assumir escritora, prefiro dizer que sou alguém que escreve, assim como alguém que respira.
O primeiro livro seu que li foi “Antes do Baile Verde” naquela edição linda da Companhia das Letras. Como você sempre diz em suas entrevistas, sou uma brasileira que sempre leu muitos estrangeiros. Inicialmente, me veio Clarice (sua querida amiga) tão querida por uma amiga minha. Mas, de fato, nunca consegui afugentar a neblina da escrita de Clarice, ao menos um pouco. Das vezes que a li senti-me totalmente cega e incapaz. Senti-me uma leitora pouco dotada. Sendo assim, o sentimento de orfandade permaneceu, não havia nenhuma escritora brasileira que pudesse dizer que era minha. Até o dia que você me abraçou! Naqueles contos tão cheios do insondável, de nivelamentos e camadas de poesia eu me encontrei. Imagine-me com os olhos marejados e o coração repetindo: achei, achei.
Agora, Lygia, não me sinto só, ao menos não tão só quanto antes. Recentemente, uma amiga foi ao Rio e trouxe pra mim de presente “Durante aquele estranho chá”, uma edição linda da Rocco com letras capitulares e papel vermelho. Estou com ele dentro da bolsa agora, quase no fim, prolongo nossa despedida. Já chorei, já sorri, já contemplei, já nasci e morri nesse interstício. Por isso, não poderia deixar de dizer pra você o quanto as suas palavras agora são minhas e o quanto a sua literatura se apodera da minha existência.
Não escrevo pra você para pedir-lhe explicações sobre personagens ou enredo. Para mim está tudo ali. Explicar destrói, despedaça, racionaliza. Escrevo para dizer que você faz muita diferença no meu mundo, que você me ajuda a ser feliz e cultiva em meu coração a esperança. Nasci no dia 16 de abril de 1985, somos do mesmo signo (solares), nasci no ano que você assumia a cadeira dezesseis na Academia Brasileira de Letras. Enquanto você angariava o reconhecimento de sua obra, eu sequer tinha consciência de mim. Gosto de fazer esses paralelos, gosto dessa mística de pensar na transversal das vidas. De fato, só iria conhecê-la nos meados dos meus vinte anos. Já escrevi um conto em sua homenagem, nada demais, sequer ouso/quero mostrá-lo. Quem sabe um dia publicarei um livro e poderei dedicá-lo a você.
Li “As Meninas” no final de 2015, nos intervalos do trabalho sorrateiramente lia algumas páginas. Não consegui ler tão rápido, muitas vezes a angústia me pegava e eu pausava a leitura. Os diálogos tão irrequietos, o espírito tão atravancado das três meninas me atropelava. Preciso lhe dizer que não há final mais bonito, me comovi tanto com a fragilidade da corajosa Lia e a atitude de Lorena que resolve a situação, que enfeita Ana Clara e que se despede como pode, numa madrugada tão triste, uma vida tão dolorida e tão breve… Não pude me conter, chorei e passei dias sofrendo e falando do livro. Sempre tentando acalentar meu coração, feito em tiras por você. Me tirando do limbo das emoções que as tarefas práticas terminam por fazer conosco, caso não se reaja a elas.
Lygia, ainda bem que você nunca desistiu. Ainda bem.
No mais, deixo para você amor!
Ananda Sampaio

*Em forma de carta pessoal.

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