quarta-feira, 19 de junho de 2019

EQUILÍBRIO




Rebeca Monteiro*
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                Não é incomum a ideia de que manter uma alimentação “saudável” só é possível ou necessária quando se está em um período de “dieta”, nesse caso, entende-se dieta como um período de restrição de determinados grupos de alimentos com um fim específico e não como a prática alimentar que uma pessoa exerce dia-a-dia, o que de fato significa o termo. ⠀⠀⠀⠀⠀
                A partir disso é importante lembrarmos que para uma boa alimentação, não devem existir extremos – a não ser em casos de doenças que precisam de cuidados específicos. Então, independentemente da decisão de começar um período de restrição alimentar ou dieta, é importante compreender que você pode comer salada em todos ou a maior parte dos dias, mas também pode comer uma sobremesa após o almoço, se você quiser. ⠀⠀⠀⠀⠀
                O mais importante é que essas colocações são apenas exemplos. Para um acompanhamento mais individualizado e orientações específicas para suas necessidades e objetivos, marque uma consulta com um Nutricionista.
*Nutricionista
CRN: 28537


sábado, 15 de junho de 2019

ZONA DE AMENAZA



Daniel Cariello*

                “Zona de amenaza”, está escrito em espanhol na placa. A frase vem embaixo de um triângulo amarelo com a forma de uma onda vazada em preto. A tradução em inglês surge logo depois, “hazard zone”. Mas não é preciso ser servido em Cervantes ou dar dicas de Dickens para entender o risco daquela área, pois a palavra que vem a seguir é a mais universal da língua japonesa: tsunami.

                A placa está localizada em Valparaíso, cidade litorânea do Chile, país conhecido pelas empanadas e pelo vinho, mas também pelos terremotos, que ameaçam causar tsunamis na costa do país.

                Os três clichês se justificam. Não preciso me alongar sobre as empanadas e os vinhos, deliciosos. E também não vou discorrer sobre terremotos, meu conhecimento sobre o assunto é pouco teórico e muito fantástico. Resume-se aos filmes da Sessão da Tarde, onde tudo treme e todo mundo é engolido, menos o mocinho, que se safa pulando nos pedaços do chão se desfazendo.

                Os fronteiriços argentinos reivindicam a primazia em empanadas e vinhos, mas deixam os terremotos para os chilenos. Espera-se um de proporções hollywoodianas para um futuro relativamente próximo. Enquanto se organiza para encarar o monstro, o Chile vai lidando com tremores menores, que o fazem avançar lentamente sobre o Oceano Pacífico. Os argentinos provocam, dizendo que são eles empurrando o Chile para o mar. E os chilenos revidam, assegurando que não é tão mal, pois assim vão gradualmente ficando “algunos centímetros más lejos de los argentinos”.

                Uma outra placa estava próxima à primeira. “Via de evacuación - Tsunami - Evacuation route” era o texto. Os desenhos eram dois. Um trazia uma onda quebrando em uma rampa e um bonequinho saltando do mar para a terra firme, qual um messias caminhando sobre as águas. O outro era de uma seta apontando pra frente. Se a onda chegar, essa é a rota de fuga.

                Acontece que esse caminho segue por uma colina apinhada de moradias, imagem que lembra uma favela carioca, porém sem barracos. Algumas casas são grandes, outras pequenas. Umas verdes, outras vermelhas. Umas térreas, outras sobrados. Umas têm vista para o Pacífico, outras também. Uma é do Neruda, todas as outras não.

                La Sebastiana é o nome da morada do poeta Pablo Neruda em Valparaíso. Sua segunda casa, em Santiago, foi batizada La Chascona. E a de El Quisco, onde ele se refugiava para escrever, Isla Negra. Ideia de poeta, essa de apelidar vivendas. Em La Sebastiana, ele gostava de assistir aos fogos de réveillon pipocarem pela encosta. E de apreciar a imensidão do oceano, enquanto o novo habitáculo ia-se erguendo aos poucos.

“...essa é a casa:
tudo o que lhe falta será azul,
agora só precisa de florir.
E isso é trabalho para a primavera”

Foi o que escreveu Pablo Neruda, testemunhando o Pacífico azul preencher as janelas da vivenda na qual viria a passar muitos anos, em meio a um verdadeiro tsunami, porém poético.
*Leia também as crônicas de Paris, escrita pelo mesmo autor, no livro Chéri à Paris www.cheriaparis.com.br






sexta-feira, 14 de junho de 2019

REFRIGERANTES: TOMAR OU NÃO?



Rebeca Lima Monteiro*

                Quando tratamos do assunto refrigerante, são muitos os posicionamentos, existem aqueles que aprovam seu consumo de maneira liberal e assim o fazem e existem também aqueles que o condenam de maneira veemente.  A questão me leva ao conceito de equilíbrio que o ser humano precisa ter nas diversas esferas da sua vida e isso inclui sua alimentação.
                 A decisão por consumir alimentos minimamente processados, processados ou ultra processados deve ser feita de maneira consciente.
                Vou deixar algumas orientações e espero que elas os ajudem a compreender um pouco melhor sobre equilíbrio alimentar! 
O que é importante você saber:
— os refrigerante, assim como os demais produtos ultra processados são ricos em açúcares, possuem baixíssimo ou nenhum teor de fibra e não vão trazer benefício ou funcionalidade, fisiologicamente falando.
— Porém, já falei para vocês e deve-se reforçar que: a nossa alimentação não está relacionada apenas às nossas necessidades biológicas, mas também às culturais, psicoemocionais, financeiras, regionais, religiosas, à logística da nossa rotina entre outros fatores. Há um contexto em tudo isso.
— um consumo moderado é diferente do consumo corriqueiro, como os próprios termos já definem. O refrigerante ou qualquer outro alimento com suas mesmas características ou bem próximas, se for consumido, deve ser feito com entendimento, ou seja, não deve ser substituto da água, caso você o tome para saciar a sede. Também não é suco ou uma bebida que acompanha uma refeição, mas sim um preparado de compostos que não vai ofertar valor nutricional algum.
                Por fim, a orientação que eu deixo é: se você quer consumi-lo, faça-o de maneira esporádica, observando o seu contexto alimentar. Se você se alimenta bem, e de forma variada, com base em preparações mais naturais e uso de minimamente processados, é praticante de atividades físicas regulares e mantém um boa hidratação, talvez o consumo em uma festa, uma comemoração ou acompanhando aquele prato que você come apenas em momentos especiais não venha a trazer grandes prejuízos, mas em outros casos, é bom que se tenha mais cuidado e atenção.
                A palavra do dia é: consciência, não só para observar o que você tem feito de desfavorável em relação ao seu consumo alimentar, mas para compreender os seus hábitos e não se condenar por aproveitar determinados momentos da vida.
                Se esse texto te ajudou, deixe um comentário aqui e vamos conversar mais um pouco mais sobre esse assunto! Ou se você precisa de ajuda para mudança de hábitos, marque uma consulta e vamos conversar.

*Nutricionista
CRN 28537


sábado, 1 de junho de 2019

FILHO DE PEIXE



Carlos Alberto Monteiro Falcão
            É, parece que isso tá no sangue mesmo. Essa história  toda começou quando uma mocinha  de 14 anos, franzina, filha de um respeitado senhor da capital piauiense se encantou por um caipira do interior do Maranhão, mais velho, já cuidando da vida. Roubou a donzela quase criança, numa operação digna dos romances cinema. Ânimos apaziguados,   a colegial foi  levada para morar  em um bairro da  “princesinha do sertão”, naquela época,  zona rural, com poucas casas, sem energia elétrica ou água encanada e praticamente às margens do riacho  do Ponte, que é formado nas proximidades da cidade pelo riacho Inhamum e várias outras nascentes, acima do banho do Tintor.
            Muito diferente de hoje, era um mundão d`água que cortava o bairro, proporcionando aos moradores vários portos, os quais eram concorridos por banhistas, pescadores de piabas e lavadeiras com  trouxas de roupa.  Riacho de águas límpidas e cristalinas,  cercado por areia branca,  por lajes e pedras que guardavam histórias e lendas de sucuris e outros monstros das águas. Não deu outra, aquela menina, que mal tinha deixado as bonecas, entre uma barrigada e outra, se deliciava com a magia do riacho, tomando banho nas suas águas frias, pescando piabas e mandis. As iscas eram variadas, desde o arroz cozido, minhocas e até larvas de insetos removidos do coco babaçu.  Toda essa farra acontecia na maioria das vezes, sem a autorização do Sr. Gonzaga. Isso foi motivo de muitas desavenças do casal.
            Foi nesse contexto, em uma das barrigadas, que nascemos em casa, como dizia um amigo “em baixo de mangueira” na quinta da casa grande. Claro que  com a ajuda das mãos habilidosas e místicas da Dona Adelaide, famosa parteira, que morava lá para as bandas da Trizidela.  O contato e paixão pelo riacho do ponte foi inevitável.  As tardes se resumiam na espera impaciente até o corpo “esfriar” por conta do almoço. Enquanto isso, nos divertíamos derrubando manga de fiapo para nos deliciarmos também à  beira do riacho, e depois,  momentos de banho  e pescaria. Vara colhida no bambuzal da beira do riacho, linha de náilon 0,25 de um pouco mais que um metro e um pequeno anzol para pegar piaba. Festa completa. Esse deleite só acabava quando começava a escurecer.  Os olhos já vermelhos e a as mãos enrugadas de tanto ficar de molho. A briga era garantida... vai ficar doente! Nada que um bom lambedor feito com mel de abelha tiúba, abundante na região naquela época, com azeite de pequi, limão e outros componentes guardados  a sete chaves pela rezadeira da região. Com uma infância como essa, é difícil não se apaixonar pelas águas com seus encantos e mistérios. Reza a lenda que quem foi batizado e bebeu das águas do riacho do Ponte, nunca esquece Caxias.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

ANABELE NÃO TEM CELULAR



Daniel Cariello*

            A Anabele jamais foi a feliz proprietária de um aparelho celular. Não falo nem do último grito em smartphone, cheio de câmeras, mas do modelo clássico mesmo, um desses tijolões do milênio passado, com tela monocromática e teclas de borracha. Nunca teve.
            Quando a Anabele me contou, eu achei a história tão improvável que sugeri a enviarmos para os jornais. Sabe o que ela disse? “Deus me livre, moço. Eu quero é tranquilidade!”. Argumentei que se ela fosse para a mídia, todos os fabricantes de smartphone iriam contatá-la para oferecer seus mais novos lançamentos, gratuitamente. “Ocê tá é louco”, repeliu a proposta, com sotaque e sem dó.
            A verdade é que fiquei fascinado com o mundo desconectado da Anabele. Não é totalmente analógico porque ela, como quase todo mundo, utiliza computador no trabalho e em casa. Mas, depois que cruza as portas de saída, está desplugada e inalcançável.
            Enquanto a escutava, lembrei-me de quando era criança e sumia de bicicleta com o Nílton, por uma Brasília ainda sendo ocupada. A gente pegava uns caminhos cheios de mato e pedra, passava por um buraco em uma cerca e chegava ao Parque da Cidade, minha mais longínqua fronteira infantil.
            Esse passeio era para mim a melhor tradução de liberdade. Às vezes, parávamos em uma amoreira ou goiabeira, para comer fruta no pé. E juntávamos as moedas dos fundos dos bolsos para dividir um caldo de cana, antes de pegarmos a ladeira que nos levava de volta para casa.
            Eu pensava nisso tudo ao mesmo tempo em que Anabele defendia as vantagens de uma vida desligada. Voltei bruscamente para a realidade quando meu telefone vibrou no bolso e derrubou da bicicleta dos meus devaneios o Daniel criança.
            A Anabele, que não tem celular, decerto não conhece a angustiante sensação do telefone vibrando no bolso. Mas eu não responderia àquele chamado. Precisava ficar concentrado, porque estava certo que em algum momento a Anabele cruzaria um portal dimensional para um mundo inteiramente analógico, e eu não queria perder a carona.
            Mas a Anabele não cruzou portal algum. E continuamos pela mesma rua, conversando, eu querendo saber como era mesmo essa vida, que já nem me recordava mais. Como ela fazia para se encontrar com os outros? “Combino pelo telefone fixo, uai”. E para chegar em um lugar? “Anoto o endereço num pedaço de papel”. E se estiver na rua e desejar falar com alguém? “Vejo o número na minha agenda e ligo do orelhão, sô”.
            Paramos no ponto de ônibus, ela acenou para o que passava, subiu, deu tchau, sumiu. Eu entrei no metrô, pensando nessa história e em como seria bom me desplugar um pouco. Tirei o iPhone do bolso, abri um app, anotei a ideia no bloco de notas, coloquei uma música no Spotify e fiquei matutando a respeito, vendo passar as estações.
*Leia também as crônicas de Paris, escrita pelo mesmo autor, no livro Chéri à Paris www.cheriaparis.com.br

terça-feira, 21 de maio de 2019

É A BETH!



Daniel Cariello*
            A Beth Carvalho partiu há duas semanas e eu nunca tive a oportunidade de agradecê-la. É que foi ela quem me trouxe para o carnaval de rua. Se hoje sou um confesso apreciador da festa de Momo, espero ansiosamente os 4 dias de blocos e emendo um depois do outro, como se não houvesse ressaca nesse mundo, a verdade é que nem sempre foi assim.
            Quando era criança, em Brasília, não via graça nos bailes de salões de festa dos clubes. Na adolescência, aproveitava do feriado para ensaiar com minha banda de rock Sendero Luminoso, cuja ambicionada revolução musical nunca foi levada à cabo. E dos carnavais do começo da minha vida adulta eu até gostava, mas porque juntava amigos em um carro e partia para as praias que me faziam falta no Planalto Central.
            Mas aí eu viajei para o Rio de Janeiro no início dos anos 2000, em uma época em que a cidade fazia as pazes com sua maior festa popular. Muitos blocos estavam surgindo, trazendo novas músicas, resgatando antigas marchinhas e enchendo outra vez as ruas.
            Nesse carnaval, por algum motivo, amigos e família também estavam no Rio. Meu plano para fugir da folia era simples: eu iria sempre acompanhar o grupo que ficasse na praia. Principalmente porque meu amigo Serginho e eu disputávamos diariamente uma nova etapa do Campeonato Mundial de Jacaré, do qual éramos os únicos competidores (e eu sempre saía campeão, apesar do Serginho jurar que era ele). Pra mim, mais valia um caixote em Ipanema que uma cabrocha na avenida.
            Meu objetivo de passar ao largo da festa acabou indo por água abaixo quando não tive como recusar o pedido da minha mãe para acompanhá-la ao Cordão do Bola Preta. Meu pai não poderia ir, então fui escalado para encarar ao lado de uma carioca foliã o mais antigo, tradicional e cheio bloco do Rio de Janeiro.
            Chegamos ao centro da cidade, onde o Bola Preta deveria estar, mas não vimos sinal dele. “Deve ter acabado”, pensei com satisfação, abrindo uma lata de cerveja e planejando retornar à praia a tempo do Mundial de Jacaré. Mas logo percebemos um barulho, em princípio ao longe, que crescia e se aproximava de nós.
            De repente, uma multidão vira uma esquina e entra na avenida onde estávamos. A horda avançava em nossa direção, acompanhada de um carro de som em cima do qual um grupo tocava sucessos do carnaval. O cantor encerrou a música e anunciou a chegada da convidada especial: “agora o Cordão do Bola Preta tem o prazer e a honra de receber a rainha Beth Carvalho”.
            O lugar pegou fogo. Recordei-me da criança avessa aos bailes que eu era e identifiquei ali o momento oportuno para correr daquele tsunami humano, cada vez mais próximo. Mas minha mãe pensou exatamente o contrário e me puxou pela mão e atravessou a turba, até chegar perto do trio elétrico: “é a Beth!”.
            Aí a Beth subiu no palco e cantou o hino do Bola Preta, “quem não chora não mama / segura, meu bem, a chupeta”. E puxou “a chuva cai lá fora, você vai se molhar / já lhe pedi: não vá embora, espere o tempo melhorar”. E arrebatou a todos com “vou festejar, vou festejar o teu sofrer, o teu penar / você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão”.
            Quando percebi, eu também cantava junto. Minha mãe cantava junto. Todas as centenas de milhares de pessoas cantávamos juntos “ô, coisinha tão bonitinha do pai / ô, coisinha tão bonitinha do pai”. E nenhum de nós nos importávamos mais com o aperto, com o calor, com o suor, porque sentíamos estar no lugar certo e na hora certa. Sem saber, Beth Carvalho comandava a cerimônia que me transformou de pagão em novo folião. Seus hinos e a cerveja que voava das latas e caía sobre mim me batizaram definitivamente no carnaval. Por isso, obrigado, Beth!
            Depois ainda deu tempo de voltar à praia e destruir o Serginho, em mais uma etapa do Campeonato Mundial de Jacaré.
*Leia também as crônicas de Paris, escrita pelo mesmo autor, no livro Chéri à Paris www.cheriaparis.com.br


domingo, 12 de maio de 2019

TRATADO SOBRE O GARLINDÉU


Tá faltando o garlindéu!
Daniel Cariello*

            Quero informar a vocês que sou perfeitamente capaz de identificar um garlindéu. Dos mais variados tipos, com bases diferentes, parafusados ou rebitados, retangulares ou arredondados, prateados ou cromados. Se a pergunta de um milhão fosse “Qual das imagens abaixo é a de um garlindéu?”, eu apontaria sem hesitação para a alternativa correta, deixando todos muito espantados.
            Se fosse para defini-lo, no entanto, eu perderia o milhão. Essa tarefa é melhor desempenhada por dicionaristas e velejadores, pois se trata de uma peça de barco. O Priberam explica garlindéu como um “aro, no topo do mastro, em que se enfia o mastaréu, os cadernais das adriças, etc”. Evidentemente, também sou capaz de identificar um mastro, mas se eu cruzasse com um cadernal da adriça em algum momento da minha vida, falharia miseravelmente em reconhecê-lo.
            Fui ter contato com o insinuante universo garlindéu graças à história vivida pelo meu amigo Jorge. Velejador amador, ele ignorou o vento que se levantava e insistiu em encarar com seu pequeno barco à vela uma curta travessia marítima, de uma praia à outra. Porém, no meio do trajeto, a brisa se transformou em tempestade e quebrou a sustentação da vela, que ficou solta. Jorge e um companheiro de desventura ficaram à deriva. Por sorte, a corrente de ar soprava para a praia, aonde chegaram assustados, mas inteiros.
            Anos mais tarde, quando superou o trauma e reparou o barco, Jorge descobriu que o acidente aconteceu porque o garlindéu se soltara. A tempestade não o destruiu (era um garlindéu dos mais sólidos), mas quebrou os rebites que o seguravam (era um garlindéu do modelo rebitado, não do parafusado).
            Jorge depois me explicou, em palavras compreensíveis para um leigo, que garlindéu é a “pecinha que une o mastro à retranca”. E aproveitou para dar a aula completa e esclarecer que “retranca é o mastro horizontal, que ajuda a segurar a vela”, ampliando meu conhecimento náutico de maneira assombrosa.
            Ele também me trouxe um novo significado da palavra, que nenhum dicionário foi ainda capaz de registrar e aproveito para reproduzir nessa crônica, provavelmente a única já feita em louvor dessa peça pequena para um barco, mas grande para a humanidade. Depois do episódio do quase naufrágio, garlindéu agora também é: “1. A peça que não pode faltar ou falhar / 2. Código para designar algo forte e resistente”.
            Em um campo semântico ampliado, a cerveja poderia perfeitamente ser o garlindéu de uma festa, já que é imprescindível em qualquer comemoração: “Traz aí um engradado de garlindéu bem gelado”. Ou então poderíamos usar o substantivo como unidade de medida dos laços afetivos: “nossa amizade é sólida como um garlindéu”.
            Nesse tratado quase exaustivo sobre tema tão fundamental, deixo vocês criarem outros significados para o verbete. Afinal, quem nunca divagou sobre assuntos desimportantes que atire o primeiro garlindéu.

CONTRA-TEMPO



Isaias Coelho Marques


O relógio
Me diz
Daquilo
Que não fiz

sexta-feira, 10 de maio de 2019

PELEJA EM DIA DE FEIRA



A. J. de O. Monteiro
      Quando está entediado o irrequieto Mago Manu costuma provocar o redemoinho com sua bengala mágica e voar a esmo fazendo peraltices. Diverte-se infantilmente cuspindo na cabeça de transeuntes (preferencialmente dos calvos). Também lhe agrada dar rasante sobre casas de desafetos, destelhando-as. Numa dessas excursões desanuviadoras o nosso personagem tanto exagerou nas evoluções e retaliações que sem perceber passou da Serra do Ibiapaba e invadiu o espaço aéreo do Ceará. Sobrevoou várias cidades, alguma conhecidas, outras, não. Mas uma cidadezinha lhe aguçou a curiosidade por bem arborizada que era e pelo grande movimento de pessoas pelas ruas. Diminuiu um pouco a altitude pode constatar que a cidade estava em dia de feira e feira é feira em qualquer lugar: gente vendendo, gente comprando naquela balbúrdia organizada. Mas, feira em cidade do interior do Nordeste não se resume em comprar e vender: Tem forró; correio elegante; fofocas e muitos, muitos litros de cachaça. É como bem descreve Luiz Gonzaga cantando a talvez mais famosa feira nordestina, a de Caruaru: “A feira de Caruaru/Faz gosto a gente ver/De tudo que há no mundo/Nela tem pra vender...” O espírito de porco então “baixou” no homem e ele resolveu tumultuar ainda mais o ambiente manobrando o redemoinho para aproximar-se o mais possível da feira e, com a força do vento espiralado, arrancar toldos, espantar bichos e levantar as saias das mulheres que lá estavam (vejam só que velhinho sapeca). Mas uma coisa o fez desviar de seu intento; ao aproximar-se observou um casal de caninos “engatados” e aí a coisa virou. Sua formação moral baseada nos valores judaicos cristãos ocidentais não podia aceitar tal sem-vergonhice em plena luz do sol e no meio da rua. Um verdadeiro atentado ao pudor. Incontinenti, sem o menor respeito às leis naturais resolveu acabar com aquilo. Parou o redemoinho e num gesto brusco apontou a bengala para os animais e tão brusco foi gesto que a bengala escapou-lhe das mãos indo cair sobre o costado do cachorro que saiu em disparada arrastando consigo a pobre cadelinha que gania desesperadamente.
      Sem a bengala o Mago fica sem o poderes dela emanados e, por consequência, sem o controle do redemoinho que começou desfazer-se e na medida que se desfazia o Mago descia, sua veste subia deixando a mostra suas partes pudendas – Pasmem! O Mago estava sem roupas de baixo! Homens, mulheres e crianças que transitavam pela feiras, em princípio assustaram-se, mas ante a visão dantesca logo caíram em convulsivas gargalhadas para o constrangimento e indignação do homem. Já no chão ele se recompôs, recuperou a bengala e cheio de ira girou-a acima da cabeça em 360º proferindo palavras dirigidas aos incautos circundantes, que ficaram estáticos, imobilizados pela magia, nas posições em que se encontravam. Alguns em situações bem hilárias, ridículas, até: uma rechonchuda senhora preservava o indicador enfiado no nariz; um sujeito sentado em um tamborete estava com uma colher cheia de frito na mão e permanecia com a boca escancarada à espera do bocado. Ante tais e tantas outras cenas do mesmo feitio a ira do velho bruxo esmaeceu transformando-se em gozo pela sensação de poder.     Sentindo-se a vontade resolveu caminhar pelo ambiente e ver a real extensão da vingança. Olhando ao redor, observou um cidadão confortavelmente refastelado em uma cadeira preguiçosa em frente a uma lojinha de bugigangas. O cidadão abanava-se com um chapéu de palha para espantar o calor e parecia completamente indiferente à cena e à presença do Mago que, intrigado, matutou: “ora pois, esse elemento escapou do meu rogo! Não é possível! Empreguei todo o poder da minha magia...” Resolveu tirar a limpo e aproximou-se do velhote, cumprimentando-o:
      — Bom dia, cidadão.
      O velho olhou para o interlocutor e respondeu demonstrando irritação:
      — Se o dia vai ser bom ou ruim, só posso responder à noite!
      — Ora, meu bom homem – disse o mago esforçando-se para ser gentil – não carece se irritar cumprimentei-o em respeito às boas regras de educação.
      — Só respeito regra de mulher!
      O Mago, que não é de levar desaforo pra casa resolveu se conter, pois interessava-lhe descobrir por que o talzinho ficara imune a sua magia. Aproximou-se um pouco mais e percebeu que quase embaixo da cadeira dormitava um vira latas de bom porte. Estancou perguntando:
      — Seu cachorro morde?

domingo, 5 de maio de 2019

BEM-TE-VI*



Daniel Cariello**

— Presta atenção no canto desse passarinho, Daniel. O que você ouve? - Perguntou meu avô paterno.
—“Piu-piu-piiiu”, ué. - Afirmei, naquela segurança de quem tem 4 anos de idade e já sabe tudo.
- Tem certeza?
            Minha sapiência, parece, não era tão sólida assim, pois imediatamente passei a me questionar sobre o gorjeio que vinha de fora e invadia a sala dos meus avós, na casa cuja porta para o jardim estava sempre aberta.
— Verdade, vô! Não é “piu-piu-piiiu”, mas “piiiiu-piiiiu-piu”.
— Tentei remediar. Afinal, mesmo com toda minha vasta experiência de vida – eu era bem maior do que a minha irmã de 2 anos -, também podia me enganar.
—Ainda não, Daniel. Vamos de novo. Agora, fecha os olhos e fica bem atento.
- “Pi-pi-piu”? Não, quer dizer, “piu-pi-pi”?
— Nada disso. Esse passarinho canta o próprio nome: “bem-te-viiii”. Escuta.
            Escutei. E ouvi exatamente isso, o passarinho dizendo “bem-te-viiii”, em uma mistura de espanto pelo conhecimento ornitológico do meu avô (mesmo que eu desconhecesse a palavra ornitológico) e vontade de crer na história.
            Ali, aprendi a identificar o único canto de ave que sei até hoje. É claro que também sou capaz de identificar o som feito por um papagaio, mas para um urbanóide como eu, papagaio é praticamente um humano com penas (que lhe permitem bater asas quando os humanos sem pena o perturbam demais).
            Meu avô estava especialmente incrível nesse dia, mais do que era normalmente, e na mesma sala me falou que era capaz de jogar uma pedra tão longe e tão rápido que eu não poderia vê-la. E passou imediatamente para a demonstração: segurou a pedra com a mão direita, encolheu o braço perto da cabeça, para gerar impulso, e fez o movimento de lançamento com a rapidez e a precisão que só os avôs especialmente incríveis têm.
            Eu nem vi a pedra, é verdade, mas porque meu avô não a lançou, como me explicou em seguida, depois de me fazer acreditar que era mais rápido e forte que o super homem. Ele a deixou cair por detrás do ombro, em cima do sofá, enquanto me fez olhar para fora da casa, para o infinito, tentando captar a possível trajetória que o projétil tomaria. Essa brincadeira eu faço até hoje, quando estou com crianças pequenas. E vejo no olhar delas o mesmo espanto que eu tive observando meu avô. Mas, ao contrário dele, nem sempre revelo o segredo. Talvez por ainda não ter netos.
— Tio, como você faz isso?
—É preciso muito treinamento, um dia explico.
            Esse foi daqueles dias que ficaram gravados para sempre na cabeça da criança de 4 anos que eu era e se transformou na criança de 45 anos que sou. Um dia especialmente incrível com um avô idem. Um dia do qual sempre me lembro, e que tive vontade de compartilhar com vocês.
* segundo Ariano, só existem três sons universais: peido, arroto e espirro, peço licença  para acrescentar o canto do bem-ti-vi. (Nota do postador)
**Leia também as crônicas de Paris, escrita pelo mesmo autor, no livro Chéri à Paris www.cheriaparis.com.br






quinta-feira, 2 de maio de 2019

SANTO REMÉDIO*


A. J. de O. Monteiro
                A quitanda do “seu” Pio era mais boteco que quitanda pois o seu estoque era composto basicamente por cachaça e cigarros. Além disso apenas arroz, feijão, farinha e alguns tipos de condimentos da culinária trivial da região. Só para se ter uma ideia, dois terços das prateleiras eram ocupados por garrafas de cachaça, a maioria sem rótulos, portanto de qualidade e origem duvidosas.
                A bodega – vamos chama-la assim mesmo – situava-se estrategicamente no cruzamento de uma rua que demandava ao mercado central da cidade e outra que conduzia ao improvisado cais de amarração das balsas que traziam do sul do estado, gêneros alimentícios para abastecer o próprio mercado e o pequeno comércio varejista local, principalmente da periferia. As balsas – embarcações rudimentares – construídas com talos de buritizeiros deixavam vazar para o rio, uma boa parte da mercadoria que transportava (feijão, arroz, milho). Traziam também aves e animais de pequeno porte (galinhas, perus, patos, suínos, ovinos e caprinos). As fezes desses animais também vazavam para o leito do rio e, juntamente com os grãos, atraiam muitas espécies peixes e, por conseguinte, pescadores. Para o mercado também convergiam pequenos produtores da zona rural da cidade que traziam pra vender na feira livre que se formava ao redor do mercado suas hortaliças, legumes e frutas que vinham até ali transportadas em lombo de jumentos e burros. Daí se formava a eclética clientela da bodega do “Seu” Pio: balseiros, pescadores, barraqueiros, roceiros, atravessadores e os pequenos comerciantes do mercado e adjacências.
                Durante toda a manhã e boa parte da tarde, esses personagens, entre um negócio e outro, uma venda e outra, uma compra e outra, dava uma chegada na bodega para uma talagada, ou duas, ou mais e, dependendo do curso dos negócios, uma boa prosa com o proprietário e outros frequentadores.
                Desde que se estabeleceu no local, “Seu” Pio, arguto, observou que os clientes, para justificar o vício, atribuíam à cachaça, qualidades medicinais do tipo: “Ó ‘seu’ Pio, com uma dor de cabeça de rachar, me sirva uma dose da danada pra aliviar...” Um outro já alegava moleza no corpo ao pedir sua dose do “remédio”. E assim por diante. Cada um com um problema diferente, mas a prescrição era a mesma: CACHAÇA! Dor de barriga, dor nas juntas, falta de apetite e, pasmem, até para pressão alta o remédio era o mesmo: CACHAÇA! E “Seu” Pio, previdente, ia anotando tudo em um volumoso caderno: cachaça é bom pra isso; cachaça é bom pra aquilo e pra aquilo outro. O caderno já estava preenchido com os “benefícios” medicinais da cachaça, para além da metade.
                Certo dia, no final da tarde, já com o movimento da feira encerrado, “Seu” Pio, como fazia diariamente, foi contabilizar o apurado contando o dinheiro vivo e as vendas no fiado anotadas em outro também volumoso caderno. Para isso precisava do auxílio dos óculos, mas, cadê os óculos? Procura aqui, procura ali, procura acolá e nada de óculos. Chama o auxílio da esposa – famosa por ser achadeira, até do que não deve ser achado – e nada de óculos. Revirou gavetas, procurou nos quartos da casa que era contígua ao boteco e necas. Foi ao quintal, procurou no galinheiro e também não achou os benditos óculos. Angustiado e agitado pela procura, começou a sentir uma incômoda dor de cabeça. Foi até o caderno de prescrições medicinais da cachaça e lá encontrou: “cachaça é bom pra dor de cabeça”. Encheu o copo com aquela que considerava a menos agressiva e tomou o “remédio” virando a cabeça para trás.  Quando abriu os olhos, ainda com a cabeça virada, viu seus preciosos óculos na terceira prateleira, entre dois litros da “bendita”. Correu ao caderno de prescrições e anotou: CACHAÇA É BOM PARA ACHAR ÓCULOS!         
*Adaptação de antiga anedota contada por meu pai, que não era lá muito bom nessa arte.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

DON´T STOP ME NOW



Daniel Cariello*
“Tonight I’m gonna have myself a real good time, I fell ali-i-ive”. Todo o pub seguiu Freddie Mercury em coro, aos primeiros acordes de Don’t stop me now. Mulheres e homens das mais variadas idades levantavam ao ar a mão que não estava segurando a pint de cerveja e acompanhavam o Queen a plenos pulmões. Juntamo-nos, os brasileiros, a eles.
O Troy 22, uma casa transformada em pub no centro de Londres, tem vários andares. A pista de dança é no último. Um inferninho perfeito, com bar ao lado, luz baixa, pouco espaço e música boa. Cheguei ali acompanhando amigos que viviam na cidade e conheciam os melhores endereços. Esse era “o mais bem guardado segredo de Londres”, segundo o slogan. Naquele momento, com todos em coro, era certamente o melhor lugar do mundo.
Foi um sonho que me levou à cidade. Sonhei com um amigo com quem havia me desentendido 10 anos antes. Não chegamos a brigar, apenas nos afastamos. Uma dessas situações que o tempo cura, mas deixa cicatrizes.
Soube que esse amigo se mudara para Londres. Eu morava em Paris. Uma noite, sonhei com ele. Na manhã seguinte, enviei uma mensagem. Poucos dias depois, peguei um trem para a capital inglesa. À tarde, atualizamo-nos do que havia ocorrido na vida de cada um durante a última década. À noite, estávamos abraçados cantando Queen.
O DJ do Troy 22 havia emendado uma sequência absolutamente matadora, com Bowie, T. Rex e Kinks. Todas cantadas por um ou outro presentes. Mas foi na hora que a voz de Freddie ocupou o ambiente que aconteceu a catarse coletiva, a comunhão musical. De repente, tudo fazia sentido e estava em seu lugar: Londres, pub, pint, rock, Queen, Don’t stop me now, cause I’m having a good time e o coro ainda maior no “la la la la laaaa” final, com todos retornando aos poucos à realidade, melhores do que antes.
Naquele momento de festa, quando cantávamos com os ingleses, meu amigo já sabia que uma operação de coração o aguardava em algum ponto futuro de sua vida. O diagnóstico foi dado antes de sua mudança para a Inglaterra. No nosso reencontro, ele me falou de tudo, só não falou disso. Seguiu sabiamente a recomendação médica: “vá viver sua vida, não pense em operação por enquanto, isso é assunto para daqui alguns anos”.
Esses dias, recebi uma mensagem dele. Um longo texto contando a saga que culminou com uma operação de aneurisma na aorta, orgulhosamente acompanhado de uma foto de sua nova cicatriz de um palmo e meio no peito. “Um símbolo forte para quem nunca desprezou a grandeza da fé e da ciência, separadas apenas pelo que nos atrasa: o dogma”, escreveu.
Respondi na hora, exprimindo meu susto de descobrir a história completa de uma só vez e desejando pronta recuperação, para podermos juntar a turma e comemorar essa marca no tórax, de preferência com ele fazendo suas danças hilárias que animam qualquer festa. “Quem não tem cicatriz é porque não viveu”, falei para ele.
            E digo mais: meu amigo, espero que seu peito e sua aorta cicatrizem tão bem quanto aquela ferida que fechamos em Londres, no Troy 22, com Queen e Don’t stop me now, I don’t want to stop at all.


*Leia também as crônicas de Paris, escrita pelo mesmo autor, no livro Chéri à Paris www.cheriaparis.com.br

quarta-feira, 24 de abril de 2019

QUEM ERA?



Isaias Coelho Marques

Bela, bela
E não era
Uma aquarela

PULSEIRINHA DE MIÇANGA



Daniel Cariello*

Daqui um mês, Louise faz nove anos. O único assunto possível com ela nesse momento é sua festa de aniversário. Quem tentar outro tema, qualquer outro, leva na hora uma invertida no rumo na conversa. Louise puxa invariavelmente todo tópico para o seu atual de predileção.

Na hora de preparar o jantar, por exemplo.

— Louise, quer sua gema mole ou dura?

— Pai, você acha que as pessoas comeriam brigadeiro confeitado de amarelo cor de gema?

— Vou servir mole, então.

— Maria-mole eu não gosto muito, acho doce demais, mas tenho amigas que a-mam! A Amanda a-do-ra! Vamos comprar pra festa?

Ou quando lemos antes dela ir pra cama.

— Vai ser o que hoje, O Menino Maluquinho?

— Não vou chamar muitos meninos pra festa. Os da minha sala não são nem um pouco maluquinhos e são muito, muito chatos!

— Prefere Pilar? O da China?

— O meu aniversário começa antes no Brasil ou na China? A gente pode passar um pedaço do dia em um país e à tarde pegar um avião pro outro? Assim dura mais tempo.

E a coisa piorou nos últimos dias. Agora já não posso nem mais ficar quieto, escondendo-me atrás de um livro. É só me ver sentado que Louise já vem me arrumando tarefa.

— Vem, pai, vamos preparar a festa.
— Mas ainda falta um mês...
— Tem muita coisa pra fazer. Vem montar as pulseirinhas de miçanga.

As pulseirinhas de miçanga fazem parte da lembrancinha do aniversário. Louise está fazendo todas. Bem, quase todas, já que terceirizou parte do trabalho ao próprio pai, sócio na empreitada financeira e agora também na braçal, literalmente pagando para trabalhar.

Ela também está criando cartões de agradecimento, “Obrigada por ter vindo!”, cada letra com uma cor diferente, em cartolina branca, enfeitada com bordas de papéis floridos diversos. Dessa vez, feitos apenas por ela, “porque se você escrever, pai, todo mundo vai saber que não é a minha letra”.

Sentei ao lado da Louise na linha de produção montada no escritório e logo fui abastecido com duas caixas de miçangas azuis e rosas, que em minhas mãos deveriam virar pulseiras com “combinações bonitas e originais”.

Fiquei tentando enfiar as pequenas miçangas no fio fino de nylon, um olho aberto e outro fechado, buscando o foco de outros tempos. Antes que eu conseguisse acertar a primeira, Louise me repreendeu e confiscou o kit que acabara de me fornecer, mostrando como se fazia.

— Entendeu, pai?

— Entendi.

— Vamos lá?

— Vamos, Louise.

Recuperei o material. Coloquei-me a postos. E escolhi a trilha sonora da labuta: Led Zeppelin. Ela também não pode comandar tudo.

*Leia também as crônicas de Paris, escrita pelo mesmo autor, no livro Chéri à Paris www.cheriaparis.com.br