sábado, 18 de fevereiro de 2017

L I V R E- A R B Í T R I O


Manoel Emílio Burlamaqui de Oliveira
                
                  O chamado livre arbítrio, para mim, é a liberdade de escolha do que desejamos para nós, e, por conseguinte, para a humanidade e para o mundo em que vivemos. Esta meu entendimento me leva a algumas constatações, que gostaria de coloca-las à crítica dos que me leem, no sentido de iniciar uma troca de ideias sobre um assunto sempre presente...
                A primeira constatação é a de que o livre arbítrio pressupõe a existência de um ser único, que pensa que raciocina que Julga e que tem o poder de escolher entre o bem e o mal, o bom e o ruim, o construir ou o destruir, e por ai, vai... E, sem dúvida, esse ser é o homem, pois, nos reinos animal, vegetal e mineral, somente ele é portador dessas características, descobertas por ele próprio...
                A segunda constatação é a de que essas escolhas não seriam tão livres como se pensa, pois estão condicionadas pelo meio que o cerca, por sua cultura, pelo seu grau de conhecimento ou sua ignorância, pela organização política e social das comunidades a que pertence etc., etc...
                Uma terceira constatação é a de que se não existe liberdade absoluta, também não há livre arbítrio absoluto...
                A quarta constatação é que existem enormes e absurdas desigualdades entre os homens, resultantes de predicados como a avareza e o egoísmo, (vejam o Papa Francisco em seu livrinho, respondendo a perguntas de crianças do mundo inteiro) que, levados ao extremo, criam a volúpia das riquezas e do poder...
                E, por fim, a quinta constatação, (por enquanto) é que, desde a Pré-história a guerra foi considerada pelos donos do poder o caminho de fazer crescer e manter tal poder, e tais riquezas, pela pilhagem e anexação de territórios ricos em minérios, pela necessidade de expandir a produção agrícola, e pela utilização de escravos, como mão de obra. Ainda hoje, sabe-se que a indústria bélica é considerada uma das maiores do mundo...

(A complexidade do tema obriga-me a publica-lo em partes. Continuarei)...

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

NÃO NASCI POETA


Isaias Coelho Marques

Não nasci poeta
Ninguém nasce
Minha poesia veio a fórceps
Meio por falta
Do que fazer
Meio por não entender
Não entender
O negócio, o vício
O ócio
Não compreender a vida
A dor, o mistério
Meio por estar perdido.
Não nasci poeta
Alguns nascem
Não tive essa sorte
Minha poesia
Veio a reboque
Da falta
De sonhos.
Como levar a sério
Um poeta assim?
Que não é forte
Suas palavras não fazem suspirar
Nem levitar
Não nasci poeta
Fui possuído pela poesia.

domingo, 8 de janeiro de 2017

ENCONTRO


Isaias Coelho Marques

Um dia,
em um mar qualquer,
encontrei o poeta H. Dobal.

Engraçado!
Seu corpo não era cinza,
Sua alma não era cinza,
Suas mãos tremiam em verde-espanto
de quem pesa as coisas
com balança de poeta.

Ninguém dos presentes ouviu,
Mas eu vi
Sinos dobrarem por ti,
Dobal!

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

REFLEXÃO SOBRE O NATAL


Manoel Emílio Burlamaqui de Oliveira
              
                Natal é a comemoração do nascimento de Jesus. Os cristãos, conforme suas condições fazem festas, doam presentes (quando criança recebia os meus quando acordava, colocados pelo “papai noel” debaixo de minha rede), compram “árvores de natal”, reúnem a família para a “ceia do natal”, e, antigamente, iam à missa da meia noite.
                Não se fala no Aniversariante, nem lhe dão um presentinho, não se cumprimenta Seu Pai, muito menos, Sua Mãe, a Santa Virgem Maria...
                Eu gostaria que agradecêssemos a Deus e a Nossa Senhora, o filho que nos deram, para a nossa Salvação, que , por nós, morreu crucificado, rezando o Pai Nosso e a Ave Maria. E gostaria de presentear o Menino Jesus, com tê-lo sempre em nossa mente e em nosso coração, toda vez que nos olharmos no espelho, toda vez que encontrássemos um mais pobre, mais necessitado , mais doente, mais ignorante, mais mal vestido, mais mal alimentado, sem ter onde morar, mais sacrificado, mais rejeitado, mais excluído que nós, fazendo alguma coisa por esse nosso semelhante, para assegurar-Lhe que, com todas as nossas dificuldades e nossos pecados, procuraremos ter misericórdia, caridade, solidariedade, pelos sofrimentos de nosso próximo, ensinamentos Seus, mais profundos, ainda que seja dando-lhe um abraço carinhoso. Feliz aniversário, Jesus!
Rezemos:

Obs: Para essa mensagem, ousei utilizar e adaptar algumas linhas de FRANCISCO, em sua Carta Apostólica “Misericordia et Misera”, de 20 de novembro de 2016, nas páginas 37, 38, 41, 42 e 43. Talvez tal inspiração possa ser considerada como um plágio, e aceitarei o fato, de bom grado, como um elogio, pois o fiz com todo o respeito e o amor que tenho por nosso Papa.

domingo, 18 de dezembro de 2016

NUNCA MAIS FALTARÁ


Isaias Coelho Marques

Faltava afagos
Perdidos na agonia
Faltava o elo
Que não estava lá
Faltava o carinho
A reboque do amor físico
Faltava o amor
E o amor,
Nesse instante,
Invadiu teu corpo.
Faltavam muitas outras coisas

E o tempo, que nunca falta.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

ISA


Isaias Coelho Marques

Que coisa
Mais divina
Precisa
Três letras
Preencheram
Nossas vidas:
                I  S  A  !

Para a netinha Isa,
Minha nova metade,

                Do Vovô
                ISA - IAS 

domingo, 6 de novembro de 2016

ETERNO AMOR


Isaias Coelho Marques

Desse amor
que vou vivendo
em chamas claras,
depois do tumulto
da paixão.

Desse amor sobrevivo
sempre atento
aos teus desejos,
te querendo
em fogo leve,
pois tudo,
tudo meu amor,
é breve.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

SERÁ?*


Daniel Cariello

               Daqui, vejo uma massa humana correndo de um lado para o outro. Eles vão e voltam em bloco desorganizado, mantido unido apenas pelo movimento conjunto. Não há escolha. Acompanham a onda ou caem e são pisoteados.

               Um pouco à frente, uns brigam contra aqueles com quem cantavam abraçados há poucos minutos. E destroem o que encontram pela frente. E quem encontram pela frente. O futuro da nação.

               Assustada, acuada, a Legião Urbana abandonou o palco. A violência não começou depois da fuga, foi a sua causa. Aquele ali, com um pedaço de madeira na mão, já estava brigando do lado de fora, assim como tantos outros. Escapou, por sorte, da polícia montada que investia sobre a fila que se encaracolava nela mesma, em uma espiral infinita.

               Vi o show da arquibancada, não do gramado, como havia previsto. Cheguei ao estádio sozinho e encontrei, por sorte, amigos da escola, acompanhados de um pai solidário e roqueiro. Eles preferiram ficar mais altos e seguros, o que foi uma boa escolha. Daqui, podemos sair sem passar pela confusão.

               Pego um dos muitos ingressos abandonados no chão. O meu foi confiscado na entrada. Guardo, já sabendo se tratar de uma relíquia, apesar de compartilhar da decepção de todos os 50 mil presentes, fiéis burgueses sem religião a quem o messias deu as costas. As mesmas costas mais cedo atacadas por um exaltado que driblou a segurança e agarrou o cantor por trás.

               Ao meu lado, estoura uma bomba. Sinto-me em perigo. É possível, ou melhor, é provável que os quatro músicos também se sentiram da mesma maneira quando uma explodiu no palco, soando em uníssono com o rufar dos tambores de Conexão Amazônica.

               Não tinha que ser assim. Há pouco mais de uma hora, um barbudo de bata branca se aproximou do microfone e começou a falar sobre querubins para uma plateia extasiada. Era uma piada sobre três anjinhos enviados a três países diferentes. Quando o último descobria seu destino, desesperava-se: “Pro Brasil, não! Pro Brasil, não!”. O barbudo emendou, então, o refrão de Que País é Esse?, em comunhão com todos os presentes.

               Porém, a noite não foi engraçada. Depois desse início catártico, tudo degenerou rapidamente. A procissão, que começou um mês antes, quando foi anunciado o maior show da história da cidade, está terminando em tragédia, com incontáveis feridos e o estádio destruído. Hoje, dia 18 de junho de 1988, os milhares de fanáticos espalhados pelo Mané Garrincha viraram soldados. Agora, eles querem lutar. E eu só quero ir pra casa e nunca mais escutar Legião Urbana.

***

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

EU X ZIDANE*


Daniel Cariello**
               Primeiro sábado em Paris. Primeira festa. Atrasei-me, depois de passar um dia (infernal) na Ikea – megaloja que é uma espécie de Tok&Stok misturada com Makro – comprando coisas para a casa.
               Ao chegar, uma surpresa: dos alto-falantes saía música brasileira! “Essa moça tá diferente, já não me conhece mais...”, e os franceses, que adoram a canção, dançavam um samba meio frankenstein. Em seguida, mais Chico. E emendaram “O que será?”. Comecei a me sentir em casa.
               Na rua estava muito frio, mas no grande apartamento – uma coisa rara em Paris – estava bem quente. Tão quente que tive que tirar o sobretudo, o casaco, o cachecol e as luvas, apetrechos comuns aqui, apesar de pouco familiares para os tupiniquins.
               Charlotte foi me apresentando às pessoas. Meu francês não é lá essas coisas, mas dá pra bater um papinho aqui e ali.
— Esses são os donos da casa.
— Enchanté.
— Esses são meus amigos.
- Enchanté.
— Esses são um casal que mora no Senegal.
— Enchanté.
               Enchanté pra cá, cerveja aqui, enchanté pra lá, cerveja acolá. Música brasileira no som. Já me sentia totalmente enturmado.
               Aí me apresentaram pra um sujeito do qual não me lembro da cara. Só me lembro da camisa.
— Ça, c’est Daniel. Il vient du Brésil.
               E o rapaz, tal qual um Clark Kent, abriu o casaco e me revelou sua verdadeira identidade.
— Regarde. - E mostrou a estampa que ostentava, orgulhoso, do Zidane, enquanto cultivava uma expressão facial cínica.
               Isso mesmo, o Zidane, que marcou dois gols de cabeça em 1998 e deu um balão no Ronaldo em 2006, que nos impôs duas derrotas em Copas do Mundo. E que, na final de 2006, perdeu a cabeça. Ou melhor: meteu-a com gosto no peito do Materazzi, zagueiro italiano.
               Aí eu me enchi. Talvez pelas derrotas do nosso time. Ou pelo dia de cão na Ikea. Ou pela minha ascendência italiana. Ou simplesmente pelo excesso de cerveja. Achei que deveria fazer alguma coisa.
               E fiz.
               Na hora em que o rapaz exibiu a figura do careca em sua camisa, percebi que o orgulho nacional estava em jogo, ali, naquele momento. Era um tapa na cara. Um desafio para um duelo. E a hora da revanche.
               Senti o peso e a responsabilidade. Cento e noventa milhões de brasileiros e 60 milhões de italianos aguardavam ansiosos por alguma ação minha.
               Respirei fundo e, imitando o meio-campista francês, meti a testa no peito do cara, com mais força do que o previsto.
               Feita a lambança, merecia um cartão vermelho, mas o máximo que pude fazer foi exibir um sorriso amarelo.
— Pardon.
               No dia seguinte, acordei com uma baita dor de cabeça.

*Esse texto faz parte do livro Chéri à Paris, disponível agora apenas em ebook: www.amazon.com.br/Chéri-Paris-brasileiro-terra…/…/B00HFY2T7Q
**"Daniel Cariello - Escritor". Continuará abrigando as crônicas cariocas

terça-feira, 20 de setembro de 2016

UH LA LA*


Daniel Cariello**
               
                 Ding dong - Acusou a campainha, com seu carregado sotaque francês.
               Achei estranho. Pensei que era um vizinho pedindo açúcar, sei lá. Abri. Parado em frente à porta um homem grande, loiro, que suava pelas ventas. Uma mistura de Gérard Depardieu com o brother do Jim Carrey em Show de Truman, mas um pouco mais bizarro.
— Bonjour - Ele disse.
— Bonjour monsieur - Respondi, caprichando no sotaque e achando que arrasava.
Daí ele desembestou a falar, rápido, papel na mão. Entendi nada.
— Pardon?
                 Ele repetiu tudo de novo, na mesmíssima velocidade. Agora pesquei uma palavra aqui e outra ali. Pelo que saquei, era alguma coisa a ver com as férias.
— Posso ler? - Pedi, apontando para o papel. Ele se enfezou.
— Mas é a mesma coisa que acabei de falar duas vezes!!! - Isso eu entendi bem. E o suor passou a sair pelo nariz também, formando umas bolhas d’água.
          Aí começamos uma guerra de nervos. Ele suando cada vez mais e eu puxando o papel, tentando entender do que se tratava. Nossa relação não começava muito bem, pensei. Não deu para ler tudo. A coisa degringolou de vez quando empaquei em uma palavra.
—Qu'est-ce que c'est Pâques? - Nunca tinha visto isso antes, Pâques. Comecei a desconfiar que ele trabalhava no zoo, ia sair de férias e estava arrecadando dinheiro pra cuidar das pacas de lá.
               Não respondeu. O nível de tensão era alto. Pelo tanto que suava, deduzi que o cara estava prestes a implodir. Era melhor encerrar aquele papo o mais rápido possível. Fiz cara de mau e fiquei olhando para ele. Ele fez o mesmo, mas era mais feio e já estava encharcado.
—Pardon monsieur, não entendi bulhufas.
— Eu também não! - Senti meus cabelos voarem com o calor do seu bafo.
               O cara deu as costas e saiu pelo corredor, bufando. Antes que eu pudesse fechar a porta, deu tempo de ouvir um urro de “putain!”, algo equivalente ao nosso “puta merda!”.
               Dei duas voltas na chave, só pra garantir.
P.S.: Pâques é Páscoa. O sujeito devia querer uma ajuda para viajar no feriado. Ou não.
--

*Esse texto faz parte do livro Chéri à Paris, disponível agora apenas em ebook: www.amazon.com.br/Chéri-Paris-brasileiro-terra…/…/B00HFY2T7Q
**"Daniel Cariello - Escritor". Continuará abrigando as crônicas cariocas

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

“A ERA DO HUMANISMO”


Manoel Emílio Burlamaqui de Oliveira

Eta livrinho difícil de sair
               Quando pensei em escrevê-lo, a intenção (ainda é) era demonstrar, passeando pela história do homem, via as chamadas “Idades” (Pré-história, Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna, e Idade Contemporânea, descritas, identificadas, caracterizadas, pelos mais diversos historiadores, e encontradas, até, no Google...) para demonstrar que os milênios de guerras, de horrores, de genocídios, de escravidões, (a pesar das descobertas, das invenções, do crescimento populacional, do crescimento econômico, etc.) estão chegando ao fim, como resultante da velocidade do acesso ao conhecimento que nos foi proporcionado pela Internet.
               Contei os anos de duração de cada Idade, ainda de acordo com os historiadores, e, comprovei que tal durabilidade tinha por base a cobiça, a ganância, do Poder e da Riqueza, sempre gêmeos inseparáveis, que, como o canto das sereias, atraia os que preferiam ter, que ser. Mas, recontar a história das dominações e dizer que, brevemente, essa história mudará, seria acrescentar pouca coisa ao que já se encontra nos livros Além disso, fica-me, sempre, a impressão de que os critérios para distinguir o começo e o fim dessas “Idades” não foram bem justificados, daí, podendo, cada um de nós, contestá-los, suprimindo, emendando ou acrescentando Idades...
               Foi nesse ponto que “descobri a pólvora”! Ousadia minha, botar mais lenha na fogueira da humanidade, catando e utilizando termos e definições, nos admiráveis homens novos, (perdoe-me o Huxley) filósofos e historiadores, para uma nova classificação dos tempos das ações humanas, desta vez, agrupadas por temas presentes em toda a sua existência!
               Passarei a enumerá-las, sem compromisso com a(s) época(s) em que existiram ou existem: 1 – Tempos da Sobrevivência 2 – Tempos das Descobertas 3 – Tempos das Organizações 4 - Tempos do Crescimento 5 - Tempos das Dominações 6 - Tempos da Politização 7 - Tempos das contestações 8 - Tempos das Ideologias 9 - Tempos das Rebeliões 10- Tempos da Informação 11- Tempos das Mudanças 12- Tempos da Participação 13- Tempos Novos (A Era do Humanismo - Democracia e Desenvolvimento do, para o, e pelo homem).

Uma dica: Os enumerados 10, 11, 12 e 13 já começaram em alguns países nórdicos.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

O ABOMINÁVEL NICOLAU


A. J. de O. Monteiro

               Sobreira era um sujeito estranho, retraído – tomavam-no por tímido. Sua postura tornava-o mais estranho ainda: magro, estatura mediana, corpo encurvado para frente, rosto encovado e com marcas de acne, talvez. Não se integrava plenamente ao ambiente de trabalho. Não participava das manifestações sociais do grupo (festinhas de aniversários ou as indefectíveis confraternizações de final de ano, etc.) – amigos? Nem ocultos nem declarados. Por várias vezes tentaram fazê-lo participar de tais reuniões, sem sucesso. Nunca faltava ao serviço, exceto por razões médicas e em raras ocasiões, é que o diziam. Assinava o ponto de entrada e saída nas horas exatas, cumpria sua carga horária com rigor. Não cumprimentava ninguém e se alguém o cumprimentava, respondia com um murmúrio ininteligível e rumava para sua sala, de onde pouco saia – era responsável pelo “arquivo morto”. Era o último “ao” dos processos que chegavam a termo: “Ao Sr. Sobreira para registro e arquivamento” – era o despacho. Recebia os processos, conferia-os meticulosamente até a última folha, assinava e carimbava a guia de protocolo a qual devolvia ao funcionário que levara os processos. No carimbo constava: Antônio N. Sobreira – Responsável pelo Arquivo/RH. Esse era o Sobreira e isso é o que o Sobreira fazia todos os dias.
********************
               De tempos em tempos, no serviço público, algum desocupado de dentro da cúpula administrativa inventa de realizar um recadastramento de pessoal argumentando necessidade de corrigir distorções e estabelecer o perfil da “força de trabalho”. Cabia, como sempre, ao Departamento de Recursos Humanos – DRH, proceder com os trabalhos, seguindo orientações da ETAN – Equipe Técnica de Alto Nível, instalada nos andares de cima. O trabalho consistia em fazer chegar aos doze mil servidores ativos do órgão, um formulário elaborado pela tal ETAN, composto de três campos: Campo 1 – Dados Pessoais; Campo 2 – Dados funcionais e, Campo 3 – Outras Informações Pertinentes. Com os formulários seguia ofício com orientações básicas de preenchimento e o aviso da obrigação de devolver o formulário preenchido em prazo “X”, sob pena de exclusão da folha de pagamento (ameaça maior que essa, não podia haver).
               Em tempo hábil o DRH já criara um grupo de trabalho para o recebimento e análise dos formulários – e nesse grupo lá estava o afortunado aqui. A análise se resumia em confrontar os dados fornecidos pelos servidores com aqueles já constantes nos seus assentamentos funcionais. Em caso de conflito entre o formulário e o assentamento entra-se em contato com o servidor, para dirimir o conflito. Beleza, né?
********************
               De centenas de formulários por mim analisados nenhum trazia preenchido o campo 3, com qualquer “informação pertinente”, até chegar às minhas mãos o formulário referente ao servidor Antônio Nicolau Sobreira, onde constava, no referido campo 3, a seguinte observação em letras de forma bem desenhadas: “PRETENDO EXTIRPAR DO MEU NOME, ESSE ABOMINÁVEL NICOLAU”. Sorri, é claro, com a cômica gravidade da frase, mas não dei maior importância e passei adiante o papel, sem comentar com ninguém. Ao final do expediente saí e, antes do lar, havia o boteco de desintoxicação com duas ou três cervejinhas.