segunda-feira, 10 de abril de 2017

PATETA


Isaias Coelho Marques

Poesia
São palavras
Descontroladas
Mal amadas
Pretensamente
Organizadas
Por esse esteta:
O poeta!

sábado, 8 de abril de 2017

A GUILHOTINA DE LISBOA*


Daniel Cariello**

Uma revisão histórica (tem coisa mais na moda do que revisão histórica?) atribui a invenção da guilhotina não aos franceses, mas sim aos portugueses. Os patrícios de Robespierre teriam-na apenas aperfeiçoado, ao descobrirem que ela dificilmente funcionaria em Portugal.
– Manoel!
– Ó pá, Joachim!
– Está cá?
– Não, estou lá.
– Então venha cá, ora pois.
– Pronto. Cá estou, Joachim.
– Pois diga-me o que é isto?
– Só digo se primeiro me disseres porque te chamas Joachim com ch.
– Não enches, Manoel. Estamos em Lisboa, no século dezoito. Queria que me chamasse como, José Sarney?
– Tens razão. Sempre pode ser pior.
– Sempre, ó pá.
– Mas afinal, o que é essa geringonça?
– Chama-se tomba lâmina, moderníssima invenção.
– Serve para quê, ó Joachim?
– Dizem que é para cortar o bacalhau mais rápido.
– E como funciona, ó pá?
– É simples, ó Manoel. Primeiro, rodas as pás dessa manivela até a lâmina suspender-se. Segundo, colocas o…
– Não entendi.
– O que foi agora, Manoel?
– Dissestes que devemos rodar as pás da manivela ou que devemos rodar, ó pá, a manivela?
– As pás, ó pá.
– Pois sim.
– Posso continuaire?
– Pois não.
– Segundo, colocas o bacalhau aqui. Terceiro, soltas as pás. Quarto, retiras o bacalhau já cortado e o levas para a Maria cozinhá-lo.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

ÓCULOS BIFOCAIS*



 Daniel Cariello**

  Talvez seja melhor você usar óculos bifocais, sentencia o oftalmologista, cujas palavras ganham ainda mais peso por precisarem abrir espaço entre os prateados fios de seu bem fornido bigode para poderem escapar da boca, um bigode desses merece ser escutado com atenção, penso eu, de dentro de minha rala barba.

  Bifocais, doutor?, bifocais, meu jovem, levanta o olho pra ver longe, abaixa pra ver perto, serve pra admirar estrelas e ler livros, você está com a vista cansada, passou dos quarenta, daqui pra frente só vai piorar, vaticina o dono do vetusto esfregão suspenso sob as discretas ventas, um oftalmologista que não usa óculos, fato que me faz voltar sobre minha primeira impressão e coloca uma dúvida sobre sua experiência no assunto, pois nesse mundo não se pode menosprezar a importância do empirismo.

  Adivinhando o meu pensamento, ele diz vou te provar novamente, lê ali aquelas letrinhas na parede, F, O, R, A, T, E, M, E, R, respondo, e agora as miúdas nesse papel, G, O, L, P, I, S, T, pode parar, a intenção é ótima, mas não é nada disso que está escrito, pra corrigir, só mesmo com duplo foco, vai fazer ou não vai fazer?

  As palavras do médico possuem a densidade e a imponência do bigode que atravessam, mas nem assim me convencem, depois de aceitar óculos bifocais, penso, a decadência é rápida e o passo seguinte será fraldas geriátricas, doutor, vamos fazer só pra ver de longe, tem certeza?, tenho.

  Uma semana depois, o sujeito da ótica liga, seu Daniel, seus óculos estão prontos, ele diz, pode vir buscar, vou buscar, experimento, só vejo longe, aqui na frente ficou tudo embaçado, é isso mesmo?, reclamo, é isso mesmo, o sujeito da ótica responde, pra ver de longe e de perto tinha que pedir pro oftalmologista receitar bifocal, fuck!, calo.

  O sujeito da ótica levanta os ombros e os cantos da boca em demonstração tanto de solidariedade quanto de não posso fazer nada por você, seu Daniel, coloco os novos óculos, tropeço na saída da loja, não vejo o maldito degrau, tiro os novos óculos e os guardo na caixa, onde agora descansam a maior parte do tempo, ficam tanto por lá que já nem sinto mais falta deles.

  Isso me leva a crer que, apesar dos fios brancos do doutor Bigode e de todo o conhecimento da medicina, minha visão entrou numas de melhorar, rio feliz, enquanto perco novamente o ônibus, essas placas com os números estão cada vez menores, diabos.

* Publicado Originalmente no Site Quadrado Brasília, em 30/03/2017
**Leia também as crônicas de Paris, escrita pelo mesmo autor, no livro Chéri à Paris www.cheriaparis.com.br

quarta-feira, 22 de março de 2017

NÃO-CONFISSÃO


Isaias Coelho Marques

Nunca sou
Sincero
O pouco que
Falo de mim
É obscuro
 Pouco claro
Quase nada
Deixo de fora
O essencial
O de dentro
Visceral
Por isso
Falo de mim
Quase nada
Boca fechada
E a sensação
Que o não dito
Fica pelo
Escrito 

sábado, 18 de fevereiro de 2017

L I V R E- A R B Í T R I O


Manoel Emílio Burlamaqui de Oliveira
                
                  O chamado livre arbítrio, para mim, é a liberdade de escolha do que desejamos para nós, e, por conseguinte, para a humanidade e para o mundo em que vivemos. Esta meu entendimento me leva a algumas constatações, que gostaria de coloca-las à crítica dos que me leem, no sentido de iniciar uma troca de ideias sobre um assunto sempre presente...
                A primeira constatação é a de que o livre arbítrio pressupõe a existência de um ser único, que pensa que raciocina que Julga e que tem o poder de escolher entre o bem e o mal, o bom e o ruim, o construir ou o destruir, e por ai, vai... E, sem dúvida, esse ser é o homem, pois, nos reinos animal, vegetal e mineral, somente ele é portador dessas características, descobertas por ele próprio...
                A segunda constatação é a de que essas escolhas não seriam tão livres como se pensa, pois estão condicionadas pelo meio que o cerca, por sua cultura, pelo seu grau de conhecimento ou sua ignorância, pela organização política e social das comunidades a que pertence etc., etc...
                Uma terceira constatação é a de que se não existe liberdade absoluta, também não há livre arbítrio absoluto...
                A quarta constatação é que existem enormes e absurdas desigualdades entre os homens, resultantes de predicados como a avareza e o egoísmo, (vejam o Papa Francisco em seu livrinho, respondendo a perguntas de crianças do mundo inteiro) que, levados ao extremo, criam a volúpia das riquezas e do poder...
                E, por fim, a quinta constatação, (por enquanto) é que, desde a Pré-história a guerra foi considerada pelos donos do poder o caminho de fazer crescer e manter tal poder, e tais riquezas, pela pilhagem e anexação de territórios ricos em minérios, pela necessidade de expandir a produção agrícola, e pela utilização de escravos, como mão de obra. Ainda hoje, sabe-se que a indústria bélica é considerada uma das maiores do mundo...

(A complexidade do tema obriga-me a publica-lo em partes. Continuarei)...

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

NÃO NASCI POETA


Isaias Coelho Marques

Não nasci poeta
Ninguém nasce
Minha poesia veio a fórceps
Meio por falta
Do que fazer
Meio por não entender
Não entender
O negócio, o vício
O ócio
Não compreender a vida
A dor, o mistério
Meio por estar perdido.
Não nasci poeta
Alguns nascem
Não tive essa sorte
Minha poesia
Veio a reboque
Da falta
De sonhos.
Como levar a sério
Um poeta assim?
Que não é forte
Suas palavras não fazem suspirar
Nem levitar
Não nasci poeta
Fui possuído pela poesia.

domingo, 8 de janeiro de 2017

ENCONTRO


Isaias Coelho Marques

Um dia,
em um mar qualquer,
encontrei o poeta H. Dobal.

Engraçado!
Seu corpo não era cinza,
Sua alma não era cinza,
Suas mãos tremiam em verde-espanto
de quem pesa as coisas
com balança de poeta.

Ninguém dos presentes ouviu,
Mas eu vi
Sinos dobrarem por ti,
Dobal!

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

REFLEXÃO SOBRE O NATAL


Manoel Emílio Burlamaqui de Oliveira
              
                Natal é a comemoração do nascimento de Jesus. Os cristãos, conforme suas condições fazem festas, doam presentes (quando criança recebia os meus quando acordava, colocados pelo “papai noel” debaixo de minha rede), compram “árvores de natal”, reúnem a família para a “ceia do natal”, e, antigamente, iam à missa da meia noite.
                Não se fala no Aniversariante, nem lhe dão um presentinho, não se cumprimenta Seu Pai, muito menos, Sua Mãe, a Santa Virgem Maria...
                Eu gostaria que agradecêssemos a Deus e a Nossa Senhora, o filho que nos deram, para a nossa Salvação, que , por nós, morreu crucificado, rezando o Pai Nosso e a Ave Maria. E gostaria de presentear o Menino Jesus, com tê-lo sempre em nossa mente e em nosso coração, toda vez que nos olharmos no espelho, toda vez que encontrássemos um mais pobre, mais necessitado , mais doente, mais ignorante, mais mal vestido, mais mal alimentado, sem ter onde morar, mais sacrificado, mais rejeitado, mais excluído que nós, fazendo alguma coisa por esse nosso semelhante, para assegurar-Lhe que, com todas as nossas dificuldades e nossos pecados, procuraremos ter misericórdia, caridade, solidariedade, pelos sofrimentos de nosso próximo, ensinamentos Seus, mais profundos, ainda que seja dando-lhe um abraço carinhoso. Feliz aniversário, Jesus!
Rezemos:

Obs: Para essa mensagem, ousei utilizar e adaptar algumas linhas de FRANCISCO, em sua Carta Apostólica “Misericordia et Misera”, de 20 de novembro de 2016, nas páginas 37, 38, 41, 42 e 43. Talvez tal inspiração possa ser considerada como um plágio, e aceitarei o fato, de bom grado, como um elogio, pois o fiz com todo o respeito e o amor que tenho por nosso Papa.

domingo, 18 de dezembro de 2016

NUNCA MAIS FALTARÁ


Isaias Coelho Marques

Faltava afagos
Perdidos na agonia
Faltava o elo
Que não estava lá
Faltava o carinho
A reboque do amor físico
Faltava o amor
E o amor,
Nesse instante,
Invadiu teu corpo.
Faltavam muitas outras coisas

E o tempo, que nunca falta.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

ISA


Isaias Coelho Marques

Que coisa
Mais divina
Precisa
Três letras
Preencheram
Nossas vidas:
                I  S  A  !

Para a netinha Isa,
Minha nova metade,

                Do Vovô
                ISA - IAS 

domingo, 6 de novembro de 2016

ETERNO AMOR


Isaias Coelho Marques

Desse amor
que vou vivendo
em chamas claras,
depois do tumulto
da paixão.

Desse amor sobrevivo
sempre atento
aos teus desejos,
te querendo
em fogo leve,
pois tudo,
tudo meu amor,
é breve.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

SERÁ?*


Daniel Cariello

               Daqui, vejo uma massa humana correndo de um lado para o outro. Eles vão e voltam em bloco desorganizado, mantido unido apenas pelo movimento conjunto. Não há escolha. Acompanham a onda ou caem e são pisoteados.

               Um pouco à frente, uns brigam contra aqueles com quem cantavam abraçados há poucos minutos. E destroem o que encontram pela frente. E quem encontram pela frente. O futuro da nação.

               Assustada, acuada, a Legião Urbana abandonou o palco. A violência não começou depois da fuga, foi a sua causa. Aquele ali, com um pedaço de madeira na mão, já estava brigando do lado de fora, assim como tantos outros. Escapou, por sorte, da polícia montada que investia sobre a fila que se encaracolava nela mesma, em uma espiral infinita.

               Vi o show da arquibancada, não do gramado, como havia previsto. Cheguei ao estádio sozinho e encontrei, por sorte, amigos da escola, acompanhados de um pai solidário e roqueiro. Eles preferiram ficar mais altos e seguros, o que foi uma boa escolha. Daqui, podemos sair sem passar pela confusão.

               Pego um dos muitos ingressos abandonados no chão. O meu foi confiscado na entrada. Guardo, já sabendo se tratar de uma relíquia, apesar de compartilhar da decepção de todos os 50 mil presentes, fiéis burgueses sem religião a quem o messias deu as costas. As mesmas costas mais cedo atacadas por um exaltado que driblou a segurança e agarrou o cantor por trás.

               Ao meu lado, estoura uma bomba. Sinto-me em perigo. É possível, ou melhor, é provável que os quatro músicos também se sentiram da mesma maneira quando uma explodiu no palco, soando em uníssono com o rufar dos tambores de Conexão Amazônica.

               Não tinha que ser assim. Há pouco mais de uma hora, um barbudo de bata branca se aproximou do microfone e começou a falar sobre querubins para uma plateia extasiada. Era uma piada sobre três anjinhos enviados a três países diferentes. Quando o último descobria seu destino, desesperava-se: “Pro Brasil, não! Pro Brasil, não!”. O barbudo emendou, então, o refrão de Que País é Esse?, em comunhão com todos os presentes.

               Porém, a noite não foi engraçada. Depois desse início catártico, tudo degenerou rapidamente. A procissão, que começou um mês antes, quando foi anunciado o maior show da história da cidade, está terminando em tragédia, com incontáveis feridos e o estádio destruído. Hoje, dia 18 de junho de 1988, os milhares de fanáticos espalhados pelo Mané Garrincha viraram soldados. Agora, eles querem lutar. E eu só quero ir pra casa e nunca mais escutar Legião Urbana.

***

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

EU X ZIDANE*


Daniel Cariello**
               Primeiro sábado em Paris. Primeira festa. Atrasei-me, depois de passar um dia (infernal) na Ikea – megaloja que é uma espécie de Tok&Stok misturada com Makro – comprando coisas para a casa.
               Ao chegar, uma surpresa: dos alto-falantes saía música brasileira! “Essa moça tá diferente, já não me conhece mais...”, e os franceses, que adoram a canção, dançavam um samba meio frankenstein. Em seguida, mais Chico. E emendaram “O que será?”. Comecei a me sentir em casa.
               Na rua estava muito frio, mas no grande apartamento – uma coisa rara em Paris – estava bem quente. Tão quente que tive que tirar o sobretudo, o casaco, o cachecol e as luvas, apetrechos comuns aqui, apesar de pouco familiares para os tupiniquins.
               Charlotte foi me apresentando às pessoas. Meu francês não é lá essas coisas, mas dá pra bater um papinho aqui e ali.
— Esses são os donos da casa.
— Enchanté.
— Esses são meus amigos.
- Enchanté.
— Esses são um casal que mora no Senegal.
— Enchanté.
               Enchanté pra cá, cerveja aqui, enchanté pra lá, cerveja acolá. Música brasileira no som. Já me sentia totalmente enturmado.
               Aí me apresentaram pra um sujeito do qual não me lembro da cara. Só me lembro da camisa.
— Ça, c’est Daniel. Il vient du Brésil.
               E o rapaz, tal qual um Clark Kent, abriu o casaco e me revelou sua verdadeira identidade.
— Regarde. - E mostrou a estampa que ostentava, orgulhoso, do Zidane, enquanto cultivava uma expressão facial cínica.
               Isso mesmo, o Zidane, que marcou dois gols de cabeça em 1998 e deu um balão no Ronaldo em 2006, que nos impôs duas derrotas em Copas do Mundo. E que, na final de 2006, perdeu a cabeça. Ou melhor: meteu-a com gosto no peito do Materazzi, zagueiro italiano.
               Aí eu me enchi. Talvez pelas derrotas do nosso time. Ou pelo dia de cão na Ikea. Ou pela minha ascendência italiana. Ou simplesmente pelo excesso de cerveja. Achei que deveria fazer alguma coisa.
               E fiz.
               Na hora em que o rapaz exibiu a figura do careca em sua camisa, percebi que o orgulho nacional estava em jogo, ali, naquele momento. Era um tapa na cara. Um desafio para um duelo. E a hora da revanche.
               Senti o peso e a responsabilidade. Cento e noventa milhões de brasileiros e 60 milhões de italianos aguardavam ansiosos por alguma ação minha.
               Respirei fundo e, imitando o meio-campista francês, meti a testa no peito do cara, com mais força do que o previsto.
               Feita a lambança, merecia um cartão vermelho, mas o máximo que pude fazer foi exibir um sorriso amarelo.
— Pardon.
               No dia seguinte, acordei com uma baita dor de cabeça.

*Esse texto faz parte do livro Chéri à Paris, disponível agora apenas em ebook: www.amazon.com.br/Chéri-Paris-brasileiro-terra…/…/B00HFY2T7Q
**"Daniel Cariello - Escritor". Continuará abrigando as crônicas cariocas