quinta-feira, 29 de setembro de 2016

EU X ZIDANE*


Daniel Cariello**
               Primeiro sábado em Paris. Primeira festa. Atrasei-me, depois de passar um dia (infernal) na Ikea – megaloja que é uma espécie de Tok&Stok misturada com Makro – comprando coisas para a casa.
               Ao chegar, uma surpresa: dos alto-falantes saía música brasileira! “Essa moça tá diferente, já não me conhece mais...”, e os franceses, que adoram a canção, dançavam um samba meio frankenstein. Em seguida, mais Chico. E emendaram “O que será?”. Comecei a me sentir em casa.
               Na rua estava muito frio, mas no grande apartamento – uma coisa rara em Paris – estava bem quente. Tão quente que tive que tirar o sobretudo, o casaco, o cachecol e as luvas, apetrechos comuns aqui, apesar de pouco familiares para os tupiniquins.
               Charlotte foi me apresentando às pessoas. Meu francês não é lá essas coisas, mas dá pra bater um papinho aqui e ali.
— Esses são os donos da casa.
— Enchanté.
— Esses são meus amigos.
- Enchanté.
— Esses são um casal que mora no Senegal.
— Enchanté.
               Enchanté pra cá, cerveja aqui, enchanté pra lá, cerveja acolá. Música brasileira no som. Já me sentia totalmente enturmado.
               Aí me apresentaram pra um sujeito do qual não me lembro da cara. Só me lembro da camisa.
— Ça, c’est Daniel. Il vient du Brésil.
               E o rapaz, tal qual um Clark Kent, abriu o casaco e me revelou sua verdadeira identidade.
— Regarde. - E mostrou a estampa que ostentava, orgulhoso, do Zidane, enquanto cultivava uma expressão facial cínica.
               Isso mesmo, o Zidane, que marcou dois gols de cabeça em 1998 e deu um balão no Ronaldo em 2006, que nos impôs duas derrotas em Copas do Mundo. E que, na final de 2006, perdeu a cabeça. Ou melhor: meteu-a com gosto no peito do Materazzi, zagueiro italiano.
               Aí eu me enchi. Talvez pelas derrotas do nosso time. Ou pelo dia de cão na Ikea. Ou pela minha ascendência italiana. Ou simplesmente pelo excesso de cerveja. Achei que deveria fazer alguma coisa.
               E fiz.
               Na hora em que o rapaz exibiu a figura do careca em sua camisa, percebi que o orgulho nacional estava em jogo, ali, naquele momento. Era um tapa na cara. Um desafio para um duelo. E a hora da revanche.
               Senti o peso e a responsabilidade. Cento e noventa milhões de brasileiros e 60 milhões de italianos aguardavam ansiosos por alguma ação minha.
               Respirei fundo e, imitando o meio-campista francês, meti a testa no peito do cara, com mais força do que o previsto.
               Feita a lambança, merecia um cartão vermelho, mas o máximo que pude fazer foi exibir um sorriso amarelo.
— Pardon.
               No dia seguinte, acordei com uma baita dor de cabeça.

*Esse texto faz parte do livro Chéri à Paris, disponível agora apenas em ebook: www.amazon.com.br/Chéri-Paris-brasileiro-terra…/…/B00HFY2T7Q
**"Daniel Cariello - Escritor". Continuará abrigando as crônicas cariocas

terça-feira, 20 de setembro de 2016

UH LA LA*


Daniel Cariello**
               
                 Ding dong - Acusou a campainha, com seu carregado sotaque francês.
               Achei estranho. Pensei que era um vizinho pedindo açúcar, sei lá. Abri. Parado em frente à porta um homem grande, loiro, que suava pelas ventas. Uma mistura de Gérard Depardieu com o brother do Jim Carrey em Show de Truman, mas um pouco mais bizarro.
— Bonjour - Ele disse.
— Bonjour monsieur - Respondi, caprichando no sotaque e achando que arrasava.
Daí ele desembestou a falar, rápido, papel na mão. Entendi nada.
— Pardon?
                 Ele repetiu tudo de novo, na mesmíssima velocidade. Agora pesquei uma palavra aqui e outra ali. Pelo que saquei, era alguma coisa a ver com as férias.
— Posso ler? - Pedi, apontando para o papel. Ele se enfezou.
— Mas é a mesma coisa que acabei de falar duas vezes!!! - Isso eu entendi bem. E o suor passou a sair pelo nariz também, formando umas bolhas d’água.
          Aí começamos uma guerra de nervos. Ele suando cada vez mais e eu puxando o papel, tentando entender do que se tratava. Nossa relação não começava muito bem, pensei. Não deu para ler tudo. A coisa degringolou de vez quando empaquei em uma palavra.
—Qu'est-ce que c'est Pâques? - Nunca tinha visto isso antes, Pâques. Comecei a desconfiar que ele trabalhava no zoo, ia sair de férias e estava arrecadando dinheiro pra cuidar das pacas de lá.
               Não respondeu. O nível de tensão era alto. Pelo tanto que suava, deduzi que o cara estava prestes a implodir. Era melhor encerrar aquele papo o mais rápido possível. Fiz cara de mau e fiquei olhando para ele. Ele fez o mesmo, mas era mais feio e já estava encharcado.
—Pardon monsieur, não entendi bulhufas.
— Eu também não! - Senti meus cabelos voarem com o calor do seu bafo.
               O cara deu as costas e saiu pelo corredor, bufando. Antes que eu pudesse fechar a porta, deu tempo de ouvir um urro de “putain!”, algo equivalente ao nosso “puta merda!”.
               Dei duas voltas na chave, só pra garantir.
P.S.: Pâques é Páscoa. O sujeito devia querer uma ajuda para viajar no feriado. Ou não.
--

*Esse texto faz parte do livro Chéri à Paris, disponível agora apenas em ebook: www.amazon.com.br/Chéri-Paris-brasileiro-terra…/…/B00HFY2T7Q
**"Daniel Cariello - Escritor". Continuará abrigando as crônicas cariocas

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

“A ERA DO HUMANISMO”


Manoel Emílio Burlamaqui de Oliveira

Eta livrinho difícil de sair
               Quando pensei em escrevê-lo, a intenção (ainda é) era demonstrar, passeando pela história do homem, via as chamadas “Idades” (Pré-história, Idade Antiga, Idade Média, Idade Moderna, e Idade Contemporânea, descritas, identificadas, caracterizadas, pelos mais diversos historiadores, e encontradas, até, no Google...) para demonstrar que os milênios de guerras, de horrores, de genocídios, de escravidões, (a pesar das descobertas, das invenções, do crescimento populacional, do crescimento econômico, etc.) estão chegando ao fim, como resultante da velocidade do acesso ao conhecimento que nos foi proporcionado pela Internet.
               Contei os anos de duração de cada Idade, ainda de acordo com os historiadores, e, comprovei que tal durabilidade tinha por base a cobiça, a ganância, do Poder e da Riqueza, sempre gêmeos inseparáveis, que, como o canto das sereias, atraia os que preferiam ter, que ser. Mas, recontar a história das dominações e dizer que, brevemente, essa história mudará, seria acrescentar pouca coisa ao que já se encontra nos livros Além disso, fica-me, sempre, a impressão de que os critérios para distinguir o começo e o fim dessas “Idades” não foram bem justificados, daí, podendo, cada um de nós, contestá-los, suprimindo, emendando ou acrescentando Idades...
               Foi nesse ponto que “descobri a pólvora”! Ousadia minha, botar mais lenha na fogueira da humanidade, catando e utilizando termos e definições, nos admiráveis homens novos, (perdoe-me o Huxley) filósofos e historiadores, para uma nova classificação dos tempos das ações humanas, desta vez, agrupadas por temas presentes em toda a sua existência!
               Passarei a enumerá-las, sem compromisso com a(s) época(s) em que existiram ou existem: 1 – Tempos da Sobrevivência 2 – Tempos das Descobertas 3 – Tempos das Organizações 4 - Tempos do Crescimento 5 - Tempos das Dominações 6 - Tempos da Politização 7 - Tempos das contestações 8 - Tempos das Ideologias 9 - Tempos das Rebeliões 10- Tempos da Informação 11- Tempos das Mudanças 12- Tempos da Participação 13- Tempos Novos (A Era do Humanismo - Democracia e Desenvolvimento do, para o, e pelo homem).

Uma dica: Os enumerados 10, 11, 12 e 13 já começaram em alguns países nórdicos.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

O ABOMINÁVEL NICOLAU


A. J. de O. Monteiro

               Sobreira era um sujeito estranho, retraído – tomavam-no por tímido. Sua postura tornava-o mais estranho ainda: magro, estatura mediana, corpo encurvado para frente, rosto encovado e com marcas de acne, talvez. Não se integrava plenamente ao ambiente de trabalho. Não participava das manifestações sociais do grupo (festinhas de aniversários ou as indefectíveis confraternizações de final de ano, etc.) – amigos? Nem ocultos nem declarados. Por várias vezes tentaram fazê-lo participar de tais reuniões, sem sucesso. Nunca faltava ao serviço, exceto por razões médicas e em raras ocasiões, é que o diziam. Assinava o ponto de entrada e saída nas horas exatas, cumpria sua carga horária com rigor. Não cumprimentava ninguém e se alguém o cumprimentava, respondia com um murmúrio ininteligível e rumava para sua sala, de onde pouco saia – era responsável pelo “arquivo morto”. Era o último “ao” dos processos que chegavam a termo: “Ao Sr. Sobreira para registro e arquivamento” – era o despacho. Recebia os processos, conferia-os meticulosamente até a última folha, assinava e carimbava a guia de protocolo a qual devolvia ao funcionário que levara os processos. No carimbo constava: Antônio N. Sobreira – Responsável pelo Arquivo/RH. Esse era o Sobreira e isso é o que o Sobreira fazia todos os dias.
********************
               De tempos em tempos, no serviço público, algum desocupado de dentro da cúpula administrativa inventa de realizar um recadastramento de pessoal argumentando necessidade de corrigir distorções e estabelecer o perfil da “força de trabalho”. Cabia, como sempre, ao Departamento de Recursos Humanos – DRH, proceder com os trabalhos, seguindo orientações da ETAN – Equipe Técnica de Alto Nível, instalada nos andares de cima. O trabalho consistia em fazer chegar aos doze mil servidores ativos do órgão, um formulário elaborado pela tal ETAN, composto de três campos: Campo 1 – Dados Pessoais; Campo 2 – Dados funcionais e, Campo 3 – Outras Informações Pertinentes. Com os formulários seguia ofício com orientações básicas de preenchimento e o aviso da obrigação de devolver o formulário preenchido em prazo “X”, sob pena de exclusão da folha de pagamento (ameaça maior que essa, não podia haver).
               Em tempo hábil o DRH já criara um grupo de trabalho para o recebimento e análise dos formulários – e nesse grupo lá estava o afortunado aqui. A análise se resumia em confrontar os dados fornecidos pelos servidores com aqueles já constantes nos seus assentamentos funcionais. Em caso de conflito entre o formulário e o assentamento entra-se em contato com o servidor, para dirimir o conflito. Beleza, né?
********************
               De centenas de formulários por mim analisados nenhum trazia preenchido o campo 3, com qualquer “informação pertinente”, até chegar às minhas mãos o formulário referente ao servidor Antônio Nicolau Sobreira, onde constava, no referido campo 3, a seguinte observação em letras de forma bem desenhadas: “PRETENDO EXTIRPAR DO MEU NOME, ESSE ABOMINÁVEL NICOLAU”. Sorri, é claro, com a cômica gravidade da frase, mas não dei maior importância e passei adiante o papel, sem comentar com ninguém. Ao final do expediente saí e, antes do lar, havia o boteco de desintoxicação com duas ou três cervejinhas.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

SAN GIOVANNI A PIRO*


Daniel Cariello**
               Começada em Paris, a caravana dos Cariello passou por Marseille e depois chegou a Roma, a partir de onde veio a ser reforçada com a presença do meu pai. O rumo seguinte e de onde escrevo nesse instante, a pequena San Giovanni a Piro, no sul da Itália, é uma espécie de Meca da família. Foi daqui que partiram meu bisavô e minha bisavó, há um século, em direção ao Brasil. Chegaram a São Paulo e depois instalaram-se no Rio de Janeiro, onde nasceu meu avô paterno. E mais tarde mudaram-se para Vitória, terra natal do meu pai.
               San Giovanni a Piro é um vilarejo do qual ouço falar desde pequeno. E no meu universo infantil construí a imagem de um lugar velho e escuro. Afinal, se meus antepassados o abandonaram é porque devia haver algo errado. Mais velho descobri que esse "algo errado" era a forte crise pela qual a Itália passava na época, causa de um enorme êxodo populacional, principalmente em direção ao Brasil e aos Estados Unidos. Mas a pintura construída na infância permaneceu na minha mente.
               Nossa chegada ao vilarejo, perto da meia-noite, ajudou a reforçar essa impressão de abandono. Poucos dos cerca de dois mil habitantes estavam na rua, o que é bem compreensível em um lugar desse tamanho.
               Na manhã seguinte, o sol brilhava. E os rostos e espíritos foram se mostrando aos poucos. Como na casa de Francesco Cariello, um primo distante. Meus pais já haviam estado um par de vezes na cidade, com dois dos meus três irmãos, e conhecem muitos endereços e pessoas. É meu pai quem toca a campainha. Vincenza, esposa de Francesco, atende. Ela abre a porta e um enorme sorriso.
               — Orlando!
               — Vincenza!
               — Comme stai?
               — Tutto benne. E voi?
               — Tutto benne. Há quanto tempo... Francesco não está, mas volta logo.
               No mesmo instante, nosso primo vira a esquina em seu velho carro. Nem bem acabamos os cumprimentos e já haviam chegado mais parentes. E logo outros mais. Não sei como ou de onde vieram. Em poucos minutos éramos quinze Cariellos conversando (ou tentando) animadamente, como velhos conhecidos. Ou como a família que somos. Fomos embora deixando abraços efusivos e a promessa de voltarmos a nos encontrar.

OMISSÃO IMPERDOÁVEL*


João José de Andrade Ferraz

               A turma estava  em preparativos, esperando com ansiedade os finalmente das solenidades de formatura. Em agitada reunião alguém lamento fato que passara despercebido: os convites fornecidos pela Universidade (além de poucos) eram horrorosos.
               Para suprir a carência, atribuíram a mim tal missão – com sutil argumento.
               — Você é amigo do Paulo Henrique (de Araújo Lima), diretor da COMEPI; e essa condição facilitará para pechinchar preço, talvez conseguir envelopes, maior quantidade, essas coisas...
               Pô, logo eu, que não levo o menor jeito pra isso? Mas não podia faltar à promessa, claro.
               Marquei entrevista com o “gráfico”, por telefone, pro outro dia; expus o assunto.
               — Bicho, tá esquecido de que isto aqui não é meu? – foi logo querendo excluir o dele da bisnaga.
               — Não; não estou, não. Mais como sou cliente indireto da empresa há muito tempo, e seu amigo, é que venho a modesta colaboração. Se puder ser, bem; se não puder, pode ir à...
               — Pera aí, vamos com calma. O que foi que você trouxe como subsídio à impressão?
               — Capa e texto.
               Olhou, fez cara de pouco entusiasmo, mas concordou em mandar imprimir mais xis convites por fora do orçamento apresentado – com preço camarada. Estendeu a cooperação, oferecendo:
               — Temos aqui um desenhista craque, capaz de melhorar o aspecto dessa efígie da justiça, cara. Cá pra nós, tá uma droga... — apontando com um lápis. Vou providenciar layout, e mais tarde ligo pra você.
               Deu tudo certo, porém... Todo empolgado, satisfeito, colega foi encarregado de levar o abençoado convite ao Magnifico  Reitor. O professor José Camilo – fumando indefectível charuto – recebeu o envelope, espiou o conteúdo e tranquilamente o devolveu, dizendo ao portador:
               — Pegue, meu caro colega doutor Kleber... Está muito interessante, de muito bom gosto. Só há um senão: quando os vocês doutores se lembrarem de apor o meu nome, mandem-me outro...
               Toda a comissão (de formatura) havia participado da elaboração!
               Quase saiu porrada...

*Do livro Registros de Memória.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

LAGOSTAS PSICODÉLICAS*


Daniel Cariello**

               Vistos de longe, os anos 60 foram a década em que metade do mundo parecia ter tomado um ácido. Músicas, filmes e livros psicodélicos brotavam por todos os cantos, como sementes (de papoula). A viagem era tão geral que nem as relações diplomáticas escaparam.
               Veja a Guerra das Lagostas, incidente envolvendo o Brasil e a França, ocorrido entre 1961 e 1963.
               O imbróglio começou quando barcos franceses vieram pescar lagostas na costa de Pernambuco. O governo brasileiro chiou. O francês bufou. O brasileiro ameaçou. O francês disse “merde!” e mandou uma frota de guerra. O brasileiro mandou os franceses tirarem os navios e os narizes da nossa costa.
               Então a coisa complicou de vez e uma guerra tornou-se iminente. Foi aí que os diplomatas de ambos os países, que andavam meio entediados desde o fim da década de 40, entraram na parada.
               Na mesa de negociações, os nossos disseram que as lagostas estavam em território brasileiro e dessa forma nos pertenciam. Os franceses concordaram e discordaram ao mesmo tempo, alegando que enquanto andavam e tocavam o fundo do mar, tais crustáceos realmente respondiam às leis de pindorama. No entanto, quando nadavam, estariam em águas internacionais e, portanto, não tinham passaporte e poderiam ser livremente pescadas.
               A história ficou tão malucrazy que nesse instante o General de Gaulle proferiu - ou não, porque ninguém sabe se é verdade mesmo - a sua frase mais famosa em terras tupiniquins: “Le Brésil, ce n’est pas un pays sérieux”, o Brasil não é um país sério. E ele queria o quê, oras, que a gente não entrasse na brincadeira?
               O quiproquó só foi resolvido quando um almirante brasileiro soltou o argumento mais brilhantemente psicodélico possível, afirmando que se as lagostas quando nadam podem ser consideradas peixes, então os cangurus quando saltam seriam nada menos do que aves.
               Brasileiros e franceses concordaram que o raciocínio fazia muito sentido. E acendeu-se então o cachimbo da paz.
- Só pra te lembrar que eu tô ali no canto, viu?~"Daniel Cariello - Escritor". Continuará abrigando as crônicas cariocas
**Leia também as crônicas de Paris, escrita pelo mesmo autor, no livro Chéri à Paris www.cheriaparis.com.br, mas agora também outros textos do autor.

AMOR?*


Adriana Bezerra

               Manoel não é um homem simples, jogou todas as suas fichas para ter uma vida tranquila, aprumada, cercada de amor e conforto, mas algo o inquietava. Não conseguia, com o tempo de casado, discernir se o que havia planejado esses anos todos, convivendo com a esposa, era de fato amor. Foi então que resolveu procurar uma terapia e, no segundo encontro, começou a me contar o que vinha em sua mente.
               — O nosso comportamento parece programado. Nos dias de semana, fazemos as tarefas individuais e em conjunto, até chegar a hora de dormir. Uma rotina que não muda há tempos. Geralmente fazemos sexo entre quintas e domingos. No momento de lazer, fazemos as coisas. Será que estamos inebriados de amor, ou somos apenas a imitação de marionetes? Burgueses em voos rasantes? Sinto tédio até na hora de fazer a feira, pois colocamos no carrinho sempre as mesmas coisas. Não tem novidade no supermercado que provoque algo diferente. O vinho, nas quintas-feiras virou rotina. Estamos perto de quê? Do início de um colapso ou de uma maneira confortante de viver no reino da paz? É claro que, se estou questionando o meu amor, é porque não sei se é verdadeiro, ou talvez não esteja sabendo amar, apesar de viver exatamente como planejei. Acredito que se tenho dúvida é porque estou vivenda a sem a certeza de que meu sentimento é universal, de acordo com o senso comum, pois, na minha concepção, é tão resistente. Não penso em improvisar nenhum comportamento ou criar um acontecimento inesperado, os dias são os mesmos, desde que organizamos nossa vida. Para mim ela não é só a pessoa que escolhi, mas também a pessoa que deu certo todos esses anos. Porém algo me inquieta: se não aventuramos é por que não temos a mesma pulsação nas veias dos poetas. Faço parte de uma população que muda culturalmente de geração a geração. Assimilo valores e as novas invenções da modernidade. Não retomamos a invenção da roda de madeira ou as rodas que existem, queremos veículos sem rodas, que voem. No casamento, dá-se o mesmo, não aceitamos mais a mulher sem uma profissão. Estamos juntos, conquistado nossos cargos, nossos títulos e prestígios. Damos os parabéns às conquistas de nosso parceiro, com elogios curtos e objetivos, sem vibrações, parabenizando como se estivéssemos cumprindo com uma obrigação e, muitas vezes, não sabemos o conteúdo do trabalho que rendeu ao nosso companheiro reconhecimento de pessoas importantes.
               Ele ficou em silêncio por alguns minutos, olhei para a expressão de sua face, percebi que não iria chorar, nem fazer cara de tristeza, estava sereno. Naquele ele recapitulava sua análise para desmembrar uma solução, ou, talvez encontrar a emoção no pedido de ajuda.
               — Amor, por quem? Acho que ando mesmo é andar nos trilhos.
               Engano meu, ele se protege a emoção, então cabe a mim torna-la possível.
               — Desculpe-me, mas terminou a sessão.

*Do livro “Valores Que Nunca Se Apagam” – Contos. 

PASSAGEIRA PAIXÃO


Isaias Coelho Marques

Rápidas
profundas
revoltas
águas da paixão
deixam
por onde passam
corações em total confusão

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

JË PEJA, TË LUTEM*

Daniel Cariello**
               
            Nunca imaginei que um dia acabaria no Kosovo. Saca o Kosovo? O mais novo país do mundo, mesmo se nações como o Brasil ou a Espanha não o reconheçam. Aquele sobre o qual os jornais sempre davam manchetes do tipo "Confusão no Kosovo", "OTAN bombardeia Pristina" e coisas do gênero.
               Então. É daqui mesmo que escrevo esse texto. Mas não pra falar de guerras ou de processos conturbados de independência. E sim de bares. E justifico.
               É que depois do estranhamento inicial da chegada, não demorei a me sentir em casa em Pristina, a capital. Um pouco pelo fato de as ruas estarem cheias de flanelinhas e lavadores de pára-brisa nos sinais. Uma especialidade que julgava brasileira e, descobri, é comum nos bálcãs. Mas principalmente por que já tenho meu bar aqui. Aliás, tenho um bar, um celular e uma agenda cheia de nomes de pessoas bacanas. Elementos que, combinados na dose certa, podem significar felicidade. Na dose errada podem significar cirrose. Ou ao menos uma dor de cabeça desgraçada.
               E como se ainda fosse pouco, tenho também uma teoria. De boteco. Diz que o cara cria raízes indeléveis com um lugar quando ali elege seu bar preferido. Como o Beirute em Brasília, o Bar do Mineiro no Rio, o La Liberté em Paris ou o Strip Depot em Pristina. Uma escolha desse calibre é etapa importante na vida social de qualquer cidadão.
               Pois o Strip Depot, então. É uma mistura de pub inglês, café francês e preço brasileiro. Quase uma filial do paraíso. E apesar do nome não tem nada a ver com esses lugares de strip tease. Ao menos até onde eu tenha visto. O Strip Depot é um dos poucos lugares de Pristina onde há um equilíbrio na quantidade de homens e mulheres. E ponto de encontro de músicos, artistas e descolados em geral.
               Mas um sujeito não é feito apenas do bar que ele escolhe. Vale lembrar da outra angústia que consome a vida de pagadores de impostos ao redor do globo, do Peru à Croácia, do Canadá ao Uzbequistão: a decisão de qual é a cerveja preferida. Eu já tenho a minha. Tá, as minhas. No Brasil, Colorado, faz favor. Na França, Leffe, s'il te plaît. E no Kosovo, Peja, të lutem. Alguém sem cerveja preferida é um eclético da cevada. E ecléticos, sabe-se disso mundialmente, são aqueles que não escolhem. Seja por preguiça, comodidade ou falta de noção.
               Fiquei pensando nisso tudo quando, no meu terceiro dia em Pristina, voltei pela terceira vez ao Strip Depot. Sentei, abri meu caderno de anotações e rabiscava alguma coisa. Então o garçom dirigiu-se a mim. Não em albanês, como faz normalmente com os clientes. Mas em inglês. Reconheceu-me. "How are you today? Is everything fine?". Nessa hora, pensei se estava bebendo demais esses dias. Pensei se devia estar ali mesmo, ao invés de ir ao hotel terminar um trabalho. E pensei ainda que aquela cevada cedo ou tarde (mais cedo do que tarde, certamente) acabaria concentrando-se na minha região abdominal, criando os inevitáveis pneus. E num golpe de esperteza, resolvi todas essas questões com a frase certa, dirigida à pessoa certa:
—Yes, everything is ok. Can I have a Peja, të lutem?- Só pra te lembrar que eu tô ali no canto, viu?*"Daniel Cariello - Escritor". Continuará abrigando as crônicas cariocas
**Leia também as crônicas de Paris, escrita pelo mesmo autor, no livro Chéri à Paris www.cheriaparis.com.br, mas agora também outros textos do autor.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

CHIQUINHO E A CAMBOTA¹


A. J. de O. Monteiro
               Francisco tinha então dezesseis anos e morava num povoado da zona rural de uma pequena cidade do interior. Naquela época era conhecido como Chiquinho. Chiquinho levava a vidinha própria de um adolescente desses rincões afastados e esquecidos do resto do mundo... Aliás, o mundo, para ele, tinha o tamanho do povoado de onde nunca havia saído. O que ele conhecia de outros cantos era pelos relatos dos “cometas”² que por ali passavam em intervalos regulares levando mercadorias e novidades do mundo exterior.
               O lugar se resumia a um aglomerado de casas, uma pracinha e a pequena capela que era atendida apenas por padres em desobrigas anunciadas e motivo de grande movimento naquele lugar também esquecido por Deus. Além disso, só os roçados e pequenas criações de gado de onde os moradores tiravam suas subsistências. Quando sobrava um pouco era trocado por mercadorias com os mascates. A energia era fornecida por um gerador movido a diesel – usina, para eles – que operava diariamente das 17h30min às 21h30min, desde que a prefeitura do município sede não suspendesse o fornecimento do combustível – geralmente por questiúnculas políticas – ou por quebra de alguma peça da máquina. Por vezes ficavam sem energia durante meses, mas nem ligavam muito, pois o único aparelho elétrico que se via por ali era o rádio, mas esse também funcionava a bateria e satisfazia às necessidades de informação e divertimento, apesar do chiado.
               Certo dia, um dia crucial na vida de Chiquinho, havia energia e o ritual do lugar era o de sempre: Os mais velhos estavam em casa, sentados à porta, proseando e ouvindo pelo rádio, “A Voz do Brasil” – para eles o melhor programa. Os mais jovens, entre os quais, Chiquinho, estavam na única e mal tratada pracinha: Uns namorando, outros conversando e alguns tomando umas biritas para passar o tempo. Nosso amigo não tinha namorada e não bebia, portanto ficava só observando e aprendendo para quando sua hora chegasse. As 21h, as luzes dos postes piscaram, era o primeiro sinal de aviso que a energia seria cortada em 30 minutos. O segundo foi às 21h15min, quando Chiquinho resolveu tomar o rumo de casa.  
               Já saia da pracinha quando ouviu uma voz macia: - “Chiquinho, me leva ‘em’ casa”. Tenho medo dos cachorros do Manoel caçador... Era Maria Cambota e Chiquinho não estava preparado. Virou-se e disse:
               — Olha, Maria, a energia vai acabar e o caminho é escuro... Minha casa é longe...
               — Tá cum medo? Num é homem não?
               Isso mexeu com os brios do rapaz, que reagiu:
                — Tenho medo não, vou te acompanhar...
               — Então vamos logo, homem.
               Seguiram sem conversar. Maria sorrindo e Chiquinho assoviando, com as mãos nos bolsos para despistar o medo, não do escuro, mas da própria mulher. Vez por outra ele olhava de banda e o andar cambaleante – próprio dos cambotas – também o fazia temer que ela, de repente, caísse sobre ele. Maria era muito grande e Chiquinho franzino.

O QUE É, O QUE É?


               Isaias Coelho Marques
Ave
Maria
Ave
Marinha
Quem
Adivinha?

quarta-feira, 27 de julho de 2016

DEVE SER LEGAL UM BUSÃO NO SENEGAL*


Daniel Cariello**
              
                O Demba tem um táxi coletivo. Por táxi, entenda-se um carro meio caindo aos pedaços, com um fio que deve ser puxado para trancar a porta por dentro, uma janela que não abre e, se abrir, não fecha, e o cinto do passageiro da frente que deve ser entrelaçado com o do motorista, já que só tem um encaixe. O velocímetro não funciona, assim como o marcador de combustível. Mas ele tem uma relação tão simbiótica com seu carro, também seu meio de vida, que sabe dizer exatamente a velocidade e sente quando precisa abastecer. Confesso que fiquei meio assustado na primeira vez que entrei ali.
               Do aeroporto de Dakar, Demba nos levou para uma vila chamada Tubab Dialaw. O trajeto de cerca de 80 km, à noite e sem trânsito, foi vencido em cerca de 2 horas. Alguns dias depois, ele nos levou a Joal, a uns 100 km ao sul de Tubab. Mais uma vez, quase 2 horas de trajeto. "Como pode demorar tanto?", pensei.
               De Joal íamos para Sine Saloum, uma ilha ali perto. O Demba não pôde ficar, mas passou direitinho as instruções.
               — Para ir ao cais de onde sai o barco, pegue um 7 Lugares. E não pague mais de mil francos. Quando você voltar, amanhã à noite, o ônibus vai parar onde eu normalmente paro o táxi. Aí eu levo vocês pra casa.
O 7 LUGARES
               Foi só quando cheguei no ponto de partida do 7 Lugares que entendi o nome do transporte. É um carro normal, que eles atocham até ter 7 pessoas, motorista incluso. Dois no banco da frente, quatro no banco de trás e Alá - já que é um país muçulmano - protegendo a todos.
                — Quanto é?
                — Dois mil.
                — Tá caro.
                — Mil e quinhentos.
                — Pago mil.
                — Mil pra você e duzentos pra bagagem.
                — Pago mil.
                — Sobe.
               Depois de negociar o preço, uma atividade tão corriqueira por lá quanto beber água, montei no táxi e coloquei a mochila de 60 litros atrás. O bagageiro de cima estava entupido de caixas e umas cinqüenta vassouras de palha. Numa curva, todas caíram.
               — Vassoura! Vassoura! Vassoura!
               O motorista parou e descemos para catá-las, esparramadas pela estrada de terra. Quando vi o tamanho de todos do lado de fora, duvidei que fôssemos caber novamente naquele carro. Mas coubemos, ainda não sei bem como. E logo depois chegamos ao cais.
N'DIAGA-N'DIAYE E A RELATIVIZAÇÃO DA REALIDADE

domingo, 24 de julho de 2016


SENE-SENE-SENEGAL*
Daniel Cariello**
               Não existe nada no mundo como o aeroporto de Dakar, a capital do Senegal. Pelo menos no meu mundo nunca existiu nada semelhante. A coisa é tão confusa aos olhos de um estrangeiro - mas ao mesmo tempo funciona tão bem dentro desse caos - que se tentarem organizar, acredito, entra em colapso instantâneo. É como uma música do Frank Zappa. Ou um filme do Fellini. Ou um X-Tudo de beira de estrada, com muito X e muito tudo. Não tente compreender sua lógica. Apenas aceite a existência.
               A introdução dessa nova realidade é a sala de desembarque. Existe esteira para as bagagens, claro, mas ela está ali só porque deve ser obrigatória a presença de uma nos aeroportos. Sua função prática é discutível. Algumas poucas malas, mais afortunadas, circulam por ela. Mas a grande maioria fica mesmo espalhada pelo chão, criando uma variante da corrida com barreiras. A diferença é que o cara saltando ao seu lado não está se exercitando espontaneamente. A única coisa que ele quer é ter o direito de alcançar suas valises antes que elas entrem num universo paralelo e desapareçam para todo o sempre. Um fato que deve ser comum no lugar, levando em conta a quantidade de sacos, sacolas e pacotes encostados pelos cantos, umas 20 vezes maior do que o número de pessoas presentes. Mas no fim das contas, e para o meu espanto, a impressão que eu tive é que todo mundo conseguiu recuperar seus pertences. Eu incluso.
               Ao sair da sala, dezenas de pessoas vieram ao mesmo tempo me oferecer os mais diversos serviços. E, se existe um povo insistente, é o senegalês. O maior erro que se pode cometer em Dakar, e isso eu só fui descobrir mais tarde, é dar corda para quem queira te vender qualquer coisa no aeroporto, na rua ou onde quer que seja.