terça-feira, 23 de agosto de 2016

LAGOSTAS PSICODÉLICAS*


Daniel Cariello**

               Vistos de longe, os anos 60 foram a década em que metade do mundo parecia ter tomado um ácido. Músicas, filmes e livros psicodélicos brotavam por todos os cantos, como sementes (de papoula). A viagem era tão geral que nem as relações diplomáticas escaparam.
               Veja a Guerra das Lagostas, incidente envolvendo o Brasil e a França, ocorrido entre 1961 e 1963.
               O imbróglio começou quando barcos franceses vieram pescar lagostas na costa de Pernambuco. O governo brasileiro chiou. O francês bufou. O brasileiro ameaçou. O francês disse “merde!” e mandou uma frota de guerra. O brasileiro mandou os franceses tirarem os navios e os narizes da nossa costa.
               Então a coisa complicou de vez e uma guerra tornou-se iminente. Foi aí que os diplomatas de ambos os países, que andavam meio entediados desde o fim da década de 40, entraram na parada.
               Na mesa de negociações, os nossos disseram que as lagostas estavam em território brasileiro e dessa forma nos pertenciam. Os franceses concordaram e discordaram ao mesmo tempo, alegando que enquanto andavam e tocavam o fundo do mar, tais crustáceos realmente respondiam às leis de pindorama. No entanto, quando nadavam, estariam em águas internacionais e, portanto, não tinham passaporte e poderiam ser livremente pescadas.
               A história ficou tão malucrazy que nesse instante o General de Gaulle proferiu - ou não, porque ninguém sabe se é verdade mesmo - a sua frase mais famosa em terras tupiniquins: “Le Brésil, ce n’est pas un pays sérieux”, o Brasil não é um país sério. E ele queria o quê, oras, que a gente não entrasse na brincadeira?
               O quiproquó só foi resolvido quando um almirante brasileiro soltou o argumento mais brilhantemente psicodélico possível, afirmando que se as lagostas quando nadam podem ser consideradas peixes, então os cangurus quando saltam seriam nada menos do que aves.
               Brasileiros e franceses concordaram que o raciocínio fazia muito sentido. E acendeu-se então o cachimbo da paz.
- Só pra te lembrar que eu tô ali no canto, viu?~"Daniel Cariello - Escritor". Continuará abrigando as crônicas cariocas
**Leia também as crônicas de Paris, escrita pelo mesmo autor, no livro Chéri à Paris www.cheriaparis.com.br, mas agora também outros textos do autor.

AMOR?*


Adriana Bezerra

               Manoel não é um homem simples, jogou todas as suas fichas para ter uma vida tranquila, aprumada, cercada de amor e conforto, mas algo o inquietava. Não conseguia, com o tempo de casado, discernir se o que havia planejado esses anos todos, convivendo com a esposa, era de fato amor. Foi então que resolveu procurar uma terapia e, no segundo encontro, começou a me contar o que vinha em sua mente.
               — O nosso comportamento parece programado. Nos dias de semana, fazemos as tarefas individuais e em conjunto, até chegar a hora de dormir. Uma rotina que não muda há tempos. Geralmente fazemos sexo entre quintas e domingos. No momento de lazer, fazemos as coisas. Será que estamos inebriados de amor, ou somos apenas a imitação de marionetes? Burgueses em voos rasantes? Sinto tédio até na hora de fazer a feira, pois colocamos no carrinho sempre as mesmas coisas. Não tem novidade no supermercado que provoque algo diferente. O vinho, nas quintas-feiras virou rotina. Estamos perto de quê? Do início de um colapso ou de uma maneira confortante de viver no reino da paz? É claro que, se estou questionando o meu amor, é porque não sei se é verdadeiro, ou talvez não esteja sabendo amar, apesar de viver exatamente como planejei. Acredito que se tenho dúvida é porque estou vivenda a sem a certeza de que meu sentimento é universal, de acordo com o senso comum, pois, na minha concepção, é tão resistente. Não penso em improvisar nenhum comportamento ou criar um acontecimento inesperado, os dias são os mesmos, desde que organizamos nossa vida. Para mim ela não é só a pessoa que escolhi, mas também a pessoa que deu certo todos esses anos. Porém algo me inquieta: se não aventuramos é por que não temos a mesma pulsação nas veias dos poetas. Faço parte de uma população que muda culturalmente de geração a geração. Assimilo valores e as novas invenções da modernidade. Não retomamos a invenção da roda de madeira ou as rodas que existem, queremos veículos sem rodas, que voem. No casamento, dá-se o mesmo, não aceitamos mais a mulher sem uma profissão. Estamos juntos, conquistado nossos cargos, nossos títulos e prestígios. Damos os parabéns às conquistas de nosso parceiro, com elogios curtos e objetivos, sem vibrações, parabenizando como se estivéssemos cumprindo com uma obrigação e, muitas vezes, não sabemos o conteúdo do trabalho que rendeu ao nosso companheiro reconhecimento de pessoas importantes.
               Ele ficou em silêncio por alguns minutos, olhei para a expressão de sua face, percebi que não iria chorar, nem fazer cara de tristeza, estava sereno. Naquele ele recapitulava sua análise para desmembrar uma solução, ou, talvez encontrar a emoção no pedido de ajuda.
               — Amor, por quem? Acho que ando mesmo é andar nos trilhos.
               Engano meu, ele se protege a emoção, então cabe a mim torna-la possível.
               — Desculpe-me, mas terminou a sessão.

*Do livro “Valores Que Nunca Se Apagam” – Contos. 

PASSAGEIRA PAIXÃO


Isaias Coelho Marques

Rápidas
profundas
revoltas
águas da paixão
deixam
por onde passam
corações em total confusão

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

JË PEJA, TË LUTEM*

Daniel Cariello**
               
            Nunca imaginei que um dia acabaria no Kosovo. Saca o Kosovo? O mais novo país do mundo, mesmo se nações como o Brasil ou a Espanha não o reconheçam. Aquele sobre o qual os jornais sempre davam manchetes do tipo "Confusão no Kosovo", "OTAN bombardeia Pristina" e coisas do gênero.
               Então. É daqui mesmo que escrevo esse texto. Mas não pra falar de guerras ou de processos conturbados de independência. E sim de bares. E justifico.
               É que depois do estranhamento inicial da chegada, não demorei a me sentir em casa em Pristina, a capital. Um pouco pelo fato de as ruas estarem cheias de flanelinhas e lavadores de pára-brisa nos sinais. Uma especialidade que julgava brasileira e, descobri, é comum nos bálcãs. Mas principalmente por que já tenho meu bar aqui. Aliás, tenho um bar, um celular e uma agenda cheia de nomes de pessoas bacanas. Elementos que, combinados na dose certa, podem significar felicidade. Na dose errada podem significar cirrose. Ou ao menos uma dor de cabeça desgraçada.
               E como se ainda fosse pouco, tenho também uma teoria. De boteco. Diz que o cara cria raízes indeléveis com um lugar quando ali elege seu bar preferido. Como o Beirute em Brasília, o Bar do Mineiro no Rio, o La Liberté em Paris ou o Strip Depot em Pristina. Uma escolha desse calibre é etapa importante na vida social de qualquer cidadão.
               Pois o Strip Depot, então. É uma mistura de pub inglês, café francês e preço brasileiro. Quase uma filial do paraíso. E apesar do nome não tem nada a ver com esses lugares de strip tease. Ao menos até onde eu tenha visto. O Strip Depot é um dos poucos lugares de Pristina onde há um equilíbrio na quantidade de homens e mulheres. E ponto de encontro de músicos, artistas e descolados em geral.
               Mas um sujeito não é feito apenas do bar que ele escolhe. Vale lembrar da outra angústia que consome a vida de pagadores de impostos ao redor do globo, do Peru à Croácia, do Canadá ao Uzbequistão: a decisão de qual é a cerveja preferida. Eu já tenho a minha. Tá, as minhas. No Brasil, Colorado, faz favor. Na França, Leffe, s'il te plaît. E no Kosovo, Peja, të lutem. Alguém sem cerveja preferida é um eclético da cevada. E ecléticos, sabe-se disso mundialmente, são aqueles que não escolhem. Seja por preguiça, comodidade ou falta de noção.
               Fiquei pensando nisso tudo quando, no meu terceiro dia em Pristina, voltei pela terceira vez ao Strip Depot. Sentei, abri meu caderno de anotações e rabiscava alguma coisa. Então o garçom dirigiu-se a mim. Não em albanês, como faz normalmente com os clientes. Mas em inglês. Reconheceu-me. "How are you today? Is everything fine?". Nessa hora, pensei se estava bebendo demais esses dias. Pensei se devia estar ali mesmo, ao invés de ir ao hotel terminar um trabalho. E pensei ainda que aquela cevada cedo ou tarde (mais cedo do que tarde, certamente) acabaria concentrando-se na minha região abdominal, criando os inevitáveis pneus. E num golpe de esperteza, resolvi todas essas questões com a frase certa, dirigida à pessoa certa:
—Yes, everything is ok. Can I have a Peja, të lutem?- Só pra te lembrar que eu tô ali no canto, viu?*"Daniel Cariello - Escritor". Continuará abrigando as crônicas cariocas
**Leia também as crônicas de Paris, escrita pelo mesmo autor, no livro Chéri à Paris www.cheriaparis.com.br, mas agora também outros textos do autor.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

CHIQUINHO E A CAMBOTA¹


A. J. de O. Monteiro
               Francisco tinha então dezesseis anos e morava num povoado da zona rural de uma pequena cidade do interior. Naquela época era conhecido como Chiquinho. Chiquinho levava a vidinha própria de um adolescente desses rincões afastados e esquecidos do resto do mundo... Aliás, o mundo, para ele, tinha o tamanho do povoado de onde nunca havia saído. O que ele conhecia de outros cantos era pelos relatos dos “cometas”² que por ali passavam em intervalos regulares levando mercadorias e novidades do mundo exterior.
               O lugar se resumia a um aglomerado de casas, uma pracinha e a pequena capela que era atendida apenas por padres em desobrigas anunciadas e motivo de grande movimento naquele lugar também esquecido por Deus. Além disso, só os roçados e pequenas criações de gado de onde os moradores tiravam suas subsistências. Quando sobrava um pouco era trocado por mercadorias com os mascates. A energia era fornecida por um gerador movido a diesel – usina, para eles – que operava diariamente das 17h30min às 21h30min, desde que a prefeitura do município sede não suspendesse o fornecimento do combustível – geralmente por questiúnculas políticas – ou por quebra de alguma peça da máquina. Por vezes ficavam sem energia durante meses, mas nem ligavam muito, pois o único aparelho elétrico que se via por ali era o rádio, mas esse também funcionava a bateria e satisfazia às necessidades de informação e divertimento, apesar do chiado.
               Certo dia, um dia crucial na vida de Chiquinho, havia energia e o ritual do lugar era o de sempre: Os mais velhos estavam em casa, sentados à porta, proseando e ouvindo pelo rádio, “A Voz do Brasil” – para eles o melhor programa. Os mais jovens, entre os quais, Chiquinho, estavam na única e mal tratada pracinha: Uns namorando, outros conversando e alguns tomando umas biritas para passar o tempo. Nosso amigo não tinha namorada e não bebia, portanto ficava só observando e aprendendo para quando sua hora chegasse. As 21h, as luzes dos postes piscaram, era o primeiro sinal de aviso que a energia seria cortada em 30 minutos. O segundo foi às 21h15min, quando Chiquinho resolveu tomar o rumo de casa.  
               Já saia da pracinha quando ouviu uma voz macia: - “Chiquinho, me leva ‘em’ casa”. Tenho medo dos cachorros do Manoel caçador... Era Maria Cambota e Chiquinho não estava preparado. Virou-se e disse:
               — Olha, Maria, a energia vai acabar e o caminho é escuro... Minha casa é longe...
               — Tá cum medo? Num é homem não?
               Isso mexeu com os brios do rapaz, que reagiu:
                — Tenho medo não, vou te acompanhar...
               — Então vamos logo, homem.
               Seguiram sem conversar. Maria sorrindo e Chiquinho assoviando, com as mãos nos bolsos para despistar o medo, não do escuro, mas da própria mulher. Vez por outra ele olhava de banda e o andar cambaleante – próprio dos cambotas – também o fazia temer que ela, de repente, caísse sobre ele. Maria era muito grande e Chiquinho franzino.

O QUE É, O QUE É?


               Isaias Coelho Marques
Ave
Maria
Ave
Marinha
Quem
Adivinha?

quarta-feira, 27 de julho de 2016

DEVE SER LEGAL UM BUSÃO NO SENEGAL*


Daniel Cariello**
              
                O Demba tem um táxi coletivo. Por táxi, entenda-se um carro meio caindo aos pedaços, com um fio que deve ser puxado para trancar a porta por dentro, uma janela que não abre e, se abrir, não fecha, e o cinto do passageiro da frente que deve ser entrelaçado com o do motorista, já que só tem um encaixe. O velocímetro não funciona, assim como o marcador de combustível. Mas ele tem uma relação tão simbiótica com seu carro, também seu meio de vida, que sabe dizer exatamente a velocidade e sente quando precisa abastecer. Confesso que fiquei meio assustado na primeira vez que entrei ali.
               Do aeroporto de Dakar, Demba nos levou para uma vila chamada Tubab Dialaw. O trajeto de cerca de 80 km, à noite e sem trânsito, foi vencido em cerca de 2 horas. Alguns dias depois, ele nos levou a Joal, a uns 100 km ao sul de Tubab. Mais uma vez, quase 2 horas de trajeto. "Como pode demorar tanto?", pensei.
               De Joal íamos para Sine Saloum, uma ilha ali perto. O Demba não pôde ficar, mas passou direitinho as instruções.
               — Para ir ao cais de onde sai o barco, pegue um 7 Lugares. E não pague mais de mil francos. Quando você voltar, amanhã à noite, o ônibus vai parar onde eu normalmente paro o táxi. Aí eu levo vocês pra casa.
O 7 LUGARES
               Foi só quando cheguei no ponto de partida do 7 Lugares que entendi o nome do transporte. É um carro normal, que eles atocham até ter 7 pessoas, motorista incluso. Dois no banco da frente, quatro no banco de trás e Alá - já que é um país muçulmano - protegendo a todos.
                — Quanto é?
                — Dois mil.
                — Tá caro.
                — Mil e quinhentos.
                — Pago mil.
                — Mil pra você e duzentos pra bagagem.
                — Pago mil.
                — Sobe.
               Depois de negociar o preço, uma atividade tão corriqueira por lá quanto beber água, montei no táxi e coloquei a mochila de 60 litros atrás. O bagageiro de cima estava entupido de caixas e umas cinqüenta vassouras de palha. Numa curva, todas caíram.
               — Vassoura! Vassoura! Vassoura!
               O motorista parou e descemos para catá-las, esparramadas pela estrada de terra. Quando vi o tamanho de todos do lado de fora, duvidei que fôssemos caber novamente naquele carro. Mas coubemos, ainda não sei bem como. E logo depois chegamos ao cais.
N'DIAGA-N'DIAYE E A RELATIVIZAÇÃO DA REALIDADE

domingo, 24 de julho de 2016


SENE-SENE-SENEGAL*
Daniel Cariello**
               Não existe nada no mundo como o aeroporto de Dakar, a capital do Senegal. Pelo menos no meu mundo nunca existiu nada semelhante. A coisa é tão confusa aos olhos de um estrangeiro - mas ao mesmo tempo funciona tão bem dentro desse caos - que se tentarem organizar, acredito, entra em colapso instantâneo. É como uma música do Frank Zappa. Ou um filme do Fellini. Ou um X-Tudo de beira de estrada, com muito X e muito tudo. Não tente compreender sua lógica. Apenas aceite a existência.
               A introdução dessa nova realidade é a sala de desembarque. Existe esteira para as bagagens, claro, mas ela está ali só porque deve ser obrigatória a presença de uma nos aeroportos. Sua função prática é discutível. Algumas poucas malas, mais afortunadas, circulam por ela. Mas a grande maioria fica mesmo espalhada pelo chão, criando uma variante da corrida com barreiras. A diferença é que o cara saltando ao seu lado não está se exercitando espontaneamente. A única coisa que ele quer é ter o direito de alcançar suas valises antes que elas entrem num universo paralelo e desapareçam para todo o sempre. Um fato que deve ser comum no lugar, levando em conta a quantidade de sacos, sacolas e pacotes encostados pelos cantos, umas 20 vezes maior do que o número de pessoas presentes. Mas no fim das contas, e para o meu espanto, a impressão que eu tive é que todo mundo conseguiu recuperar seus pertences. Eu incluso.
               Ao sair da sala, dezenas de pessoas vieram ao mesmo tempo me oferecer os mais diversos serviços. E, se existe um povo insistente, é o senegalês. O maior erro que se pode cometer em Dakar, e isso eu só fui descobrir mais tarde, é dar corda para quem queira te vender qualquer coisa no aeroporto, na rua ou onde quer que seja.

domingo, 17 de julho de 2016

SER HUMANO/SER HUMANO


Manoel Emilio Burlamaqui de Oliveira

               Somos, segundo as últimas estatísticas, sete bilhões e duzentos milhões de seres humanos , também conhecidos por “pessoas”, habitando o planeta Terra. Por sua vez, o planeta Terra, gira em torno da estrela Sol, uma das menores do Universo, onde existem bilhões e bilhões de outra estrelas, que, segundo nossos cientistas, também, devem possuir seus planetas, habitados ou não (Isso é outra história...)
               Pois bem, coube a mim, um ínfimo e invisível cisco nessa imensidão de bilhões, encontrar-me, no bar da d. Chiquinha, na cidade de Teresina, do estado do Piauí, no país Brasil, do Sub- continente Sul-Americano, no continente Americano, do planeta Terra, satélite da estrela Sol, parte , igualmente, ínfima, do Universo, com meu amigo , outro ínfimo e invisível cisco (mas, aqui pra nós, brilhante cronista), para, dele, receber uma incumbência (ou desafio?), via facebook, de avaliar algo que só tem valor (se tiver...) para nós, ínfimos ciscos do universo !
               Mas, todavia e contudo, não me negarei a responder ao Antonio Ajom, e vou pegar o pião na unha!
               Primeiro, vamos colocar os pingos nos iii: ser (verbo) humano poderia ser conjugado “Eu sou, tu és ele é, nós somos, vós sois, ele são”, pois não? humano (s) . Será, então, a palavra humano um adjetivo, como nas frases “ser bom, ser amigo, ser desprezível”... Porem, há, no mínimo, uma diferença, pois, ser (verbo) humano, no meu pouco entendimento, é portar as qualidades e os defeitos do animal racional homem. E serve de desculpas, ou de elogios, quando afirmamos “ ele é um fraco , um mau caráter”, ou “ele é admirável, um verdadeiro homem...”
               Já, ser (substantivo) humano, é um ser, ente, indivíduo, ou espécie, do reino animal, que anda em pé, pensa, raciocina, acumula conhecimentos, escolhe o que lhe parece melhor, se organiza e tem a capacidade de construir e destruir, conforme os conhecimentos adquiridos, no tempo e no espaço, e os objetivos, gananciosos ou não, a que se propõe alcançar....Mais uma vez, a palavra humano, qualifica, identifica, um ser, agora, substantivo.(continua)

O MUNDO PARALELO DE CHRISTIANIA*


Daniel Cariello**
               
                 Estávamos na porta de Christiania, a célebre cidadela hippie de Copenhaguen, onde artistas, vagabundos, poetas, marginais, traficantes, hippies e todo tipo de alternativo convivem harmonicamente há 40 anos como se o sonho sessentista de paz & amor & drogas nunca tivesse deixado de existir.
               Antes de passarmos a barreira, lembrei-me do aviso de um amigo: “Velho, Christiania é um mundo paralelo. Ali você acessa uma outra dimensão, uma realidade muito diferente da nossa. Não é pra iniciantes, fica ligado”.
               Entramos um pouco apreensivos e prendemos o ar. Mas logo percebemos que meu amigo havia exagerado. Tudo parecia completamente normal. O céu era esverdeado, como em qualquer lugar do mundo. E a chuva de purpurinas em forma de coração não era forte o bastante para incomodar. É verdade que estranhei um pouco um sujeito vestido de Charles Chaplin que andava plantando bananeira, mas o cachorro rosa ao meu lado me tranquilizou, garantindo que o cidadão só caminhava daquele jeito porque se sentia um pouco indisposto.
               Na rua principal, comerciantes de alimentos e plantas ali mesmo produzidos dividiam espaço com enormes placas informando que era proibido tirar fotos e tocar balalaika. Fiquei tão absorto lendo o informe que quase fui atropelado por um elefante distraído. Não posso reclamar, a culpa era minha, eu estava fora da faixa e não respeitei a preferência do bicho.

sábado, 9 de julho de 2016

PEQUI OR NOT PEQUI” (POR EMPRÉSTIMO) — OUTRA VISÃO.


Manoel Emilio Burlamaqui de Oliveira
               
          Anos 50, estava no auge a invenção de que o crescimento populacional das nações subdesenvolvidas era o responsável pela fome, no mundo...
               Anos 60, em pleno governo militar, vieram “cientistas”, “profissionais” de todos os tipos, dos EE. UU., para introduzir, nas vaginas das mulheres da Amazônia, aparelhos que as impedissem de engravidar!
Incrível, pois todos os que lidavam COM PROBLEMAS DE DESENVOLVIMENTO, sabiam que não haveria fome se houvesse distribuição de renda. E que, para tanto, seriam necessárias, apenas, algumas reformas nas chamadas políticas econômicas e sociais das nações pobres (as chamadas reformas de base) No Brasil essas reformas eram encabeçadas pelas reformas Agrárias, Educação e Saúde Pública. Facim, facim...! Tão fáceis que, até hoje, nunca foram feitas...
               Isso, escrito acima, é para justificar umas visitas que fiz, com meus amigos Manoel Andante e Mago Manú, anos atrás, a vários latifúndios das principais regiões do Piauí, por pura curiosidade, para sabermos quem paria mais, as ricas ou as pobres, moradoras naquelas terras... Já que, nas nações de gente rica se paria tão pouco que importavam mão-de-obra daquelas de gente pobre, ora vejam só!
               Sabem o que verificamos? As famílias ricas tinham mais filhos que as famílias pobres! E por quê? Os filhos das pobres morriam de montão, por falta de “sustança”, por verminoses, pelos mais variados tipos de vírus, transmitidos pela muriçoca, pelos “barbeiros” que viviam nas casas de taipa, etc, etc, etc...

quinta-feira, 7 de julho de 2016

DEVIR


Isaias Coelho Marques

Ironia
Da
Ironia
Pensava
Que era
Mas nunca seria

JEMAA EL-FNA*



Daniel Cariello**
              
               Dezenove dirhams, cerca de quatro reais, é quanto custa o meu café da manhã. Quatro pelo suco de laranja fresco, tomado em uma das dezenas de barracas que vendem a bebida a preço tabelado na praça Jemaa el-Fna, com direito a chorinho de quase meio copo, e quinze pelo chá de hortelã e pelo pain au chocolat, consumidos em um café. Muito barato, ainda mais levando em conta a vista privilegiada da maior praça de Marrakech, provavelmente o principal ponto turístico do Marrocos.
               — Tem que pagar o chá e o croissant agora, mon ami.
               — Tá aqui.
               Do alto dos minaretes, os almuadens chamam quase simultaneamente à prece pela segunda vez do dia. A primeira me acordou às seis da manhã. O belo e incompreensível canto logo cessa, e as escalas árabes das flautas dos múltiplos encantadores de cobra voltam a todo fôlego. De onde estou, conto doze deles, oito especializados em najas que permanecem indefinidamente em posição de bote, quase nunca o concluindo. O último acidente com uma serpente aconteceu já faz um tempo, mas parece que o turista nunca voltou pra reclamar.
              Vejo também um sujeito perambulando com um macaco no ombro, propondo fotografias aos passantes, dois tocando percussão local, oferecendo mini shows para os dispostos a pagar, e ainda um outro com um chapéu típico do país, de formato parecido com uma lata de goiabada mais alta, do centro do qual sai uma espécie de corda trançada de cinquenta centímetros com uma bola de tecido na ponta. Este cidadão abaixa o pescoço e descreve voltas rápidas com a cabeça, fazendo a corda girar como se fosse uma hélice. Não entendi se ele propõe algo aos transeuntes ou apenas tenta refrescar as ideias nesse inverno do quase Saara, onde as temperaturas variam até trinta graus durante o dia.

sábado, 25 de junho de 2016

CONSTATAÇÃO


Isaias Coelho Marques

Do escuro deste dia ressacado,
salta fora pela órbita alvo olho duro.
Novamente a quadratura do erro diário,
displicente amanhecer ordinário,
na campa desse instante acachapado,
foi-se tudo que antes era puro.

PEQUI OR NOT PEQUI?*


Daniel Cariello**

Na mesa do bar, enquanto Joca dava beijinhos do seu pescoço, a Flávia anunciou que ia preparar um jantar romântico na casa dela.
— Galinhada e arroz com pequi.
O Joca se assustou e parou com os beijos.
— Pequi? Por quê?
A Flávia, viciada no fruto, nem se ligou. E empurrou o rosto do Joca de volta ao seu pescoço.
— Porque é bom, oras. Continua.
O Joca nunca tocara no assunto, mas não suportava pequi, nem o cheiro, nada. Culpa do Tio Onofre, dizia.
— Flávia, pequi não dá.
— Dá, sim, tá na época.
— Tá na época de alguém fazer algo contra essa ameaça e bani-la do Sistema Solar. Não como nem amarrado. Pequi ainda não está pronto, veja bem, os espinhos nem tiveram tempo de sair do fruto. Daqui a mil anos, talvez. Darwin, entende? Enquanto isso, vamos deixá-lo quieto.
A Flávia nunca pensara que o Joca tivesse inclinações radicais, e conclamou uma assembleia à mesa, com direito a voto de todos os amigos. O que eles decidissem seria aceito pelo casal.
— Então, pequi or not pequi?
— Pequi, disse a Marlene. O Joca tem que aceitá-la como você é.
— Protesto, interrompeu o Bigode. Se isso o incomoda, não custa fazer um esforço. Not pequi.