sexta-feira, 9 de junho de 2017

A PRAÇA NOEL ROSA*


Em 04 de junho de 2017 por Daniel Cariello**

 PrefáciodaCarolNogueira:

   A título de prefácio, antecedo a crônica do Daniel Cariello com um comentário: o texto da semana dos nossos dois colaboradores chegaram às nossas caixas de correio na semana passada com uma coincidência incrível. Tanto Zuzu quanto o Dani abordavam exatamente o mesmo tema em suas colunas – o samba do SCS. O Dani achou que a coincidência derrubaria a crônica dele. Eu acho o contrário. Que não existem coincidências – e que esses dois textos e fotos sobre esse lindo encontro semanal significa muita coisa.
A Praça Noel Rosa, por Daniel Cariello
   Colocaram uma pedra no centro de Brasília, o Setor Comercial Sul, pra marcar a ocupação da área pública por seu real proprietário, o povo. Pedra reinaugural simbólica: “Todas as sextas-feiras, das seis da tarde à meia-noite, esse lugar passará a ser chamado Praça Noel Rosa”, declarou um deles, preenchendo o copo dos cúmplices, mais do que parceiros, e puxando na voz um samba: “podem me prender / podem me bater / podem até me deixar sem comer / que eu não mudo de opinião / daqui do morro eu não saio, não”.
   Puxaram na voz o samba Opinião, dividindo o microfone, compartilhando a praça e a música com quem quisesse se instalar para tomar um trago antes de enfrentar a volta para casa. E com quem chegasse pra ali ficar até soar o último acorde da noite.
   Partilharam a praça e a música com trabalhadores dos escritórios, consultórios, cartórios e outros ofícios notórios, desses que povoam os centros das cidades. Com atendentes, gerentes e delinquentes daquela redondeza. Com amigos e amores, com crianças e cantores, com senhoras e senhores.
   Completaram o copo dos cúmplices com a companheira cachaça do Eliseu, trazida pessoalmente pelo dito-cujo. E entoaram a canção composta em loas à aguardente artesanal, jurando que “é coisa pura, curtida no barril de pólvora e faz subir a nossa temperatura”. Só tocada quando a dupla, Eliseu e sua cana, se faz presente. Felizmente, para músicos e público, o comparecimento tem sido alto.
   Emendaram uma música e uma cachaça em outra música e outra cachaça e invocaram Cartola, Vinícius e Clara, Clementina, Baden e Nara, mortos e vivos, ilustres e obscuros, todos, a baixarem por ali para tomar posse do microfone, da mesa, da Praça Noel Rosa, do centro, da cidade.
   Bicaram mais uma vez a cerveja gelada, para as palavras e melodias escoarem mais facilmente. Abriram espaço para a dança da mendiga, que não perde uma edição do evento. Tomaram cuidado de não irritar o Barreto, pois o fornecimento de espetinhos precisa continuar. Esticaram um pouco o horário, atendendo pedidos de fora e de dentro da mesa. Permaneceram por lá até depois do fim da festa, só pra prosear um pouco mais.
   Ocuparam, convidaram e cantaram. Ensaiaram, compartilharam e resistiram. E como o samba guarda um pé no passado – ou na tradição – e um olhar para o futuro, enquanto tocam, vão embalando em música a transformação de um espaço no coração de Brasília.
* Publicado Originalmente no Site Quadrado Brasília, em 30/03/2017

**Leia também as crônicas de Paris, escrita pelo mesmo autor, no livro Chéri à Paris www.cheriaparis.com.br


PAPEANDO, ANANDA, NADA MAIS...

Manoel Emílio Burlamaqui de Oliveira

O espírito e o fantasma
   O espírito de Ananda gosta, pouco, de ficar parado, escutando o que se fala, normalmente, em reuniões de família, ou de amigos, sempre o já esperado... Prefere sair de seu corpo e voar, sem compromissos, livre, para melhor conhecer, e descobrir, pra que serve a vida e tudo que a envolve!
   Não é um fantasma, como “o espirito que anda”, dos antigos Gibis, que, para que os bantos e zulus acreditassem nele, se passava por eterno, através dos seus descendentes e, por isso mesmo, nem fantasma era...
   É, apenas, um estudante, um pesquisador, um descobridor, que se encanta com suas descobertas, encantando, por sua vez, quem encontra o que deposita na sua prisão, “O Vestido”
   Por falar em fantasmas, não confundi-los com as aparições: enquanto os fantasmas sempre aparecem vestidos, com vestimentas do nosso conhecimento, pois são de pessoas que já se foram, as aparições são assombrações, criadas pelo imaginário popular, e nada têm a ver com nossos entes queridos, ou devedores. Delas, eu me pelava de medo, principalmente, da “mula sem cabeça que botava fogo pelas ventas”... Valei-me, Nossa Senhora, Mãe de Deus!!
xxx
   Por falar em vestido, querida sobrinha-neta, queres botar um vestido branco num espírito? Vou meter o meu bedelho onde não devia: deixa teu espírito em paz e demonstra teu carinho, teu amor e tua saudade de tuas avós dando uma baita festa e usas o vestido branco, com os anéis, que elas te deram... O sentimento que não sabes descrever vira o puro amor!
xxx
   Por favor, Ananda, tira da cabeça essa história de monge budista. Não mates teu espírito que voa, todos os que adoram viver irão sofrer muito com sua falta! Tu dissestes, “caminhar é conversar” ... Sabes de uma cousa, menina,? Eu caminho a semana toda, às 05h20min, e converso comigo mesmo, com vigias meus amigos, com moradores de rua, com minha cadela acompanhante, com os passarinhos que começam a cantar, com a praça que me acolhe, e chego em casa, ás 06h10min, leve, leve e sem cansaço!
xxx
   Aí, dizem que estou caducando... Morro de rir, caducar é coisa gostosa!

sábado, 3 de junho de 2017

MONOGRAMO

Ananda Sampaio

 Quem nunca morou na própria impossibilidade não sabe o que é sentir-se desabrigado. O voo é amador, mas é um voo.  Mesmo sob risco constante de mais uma queda. [A paisagem é minha].

 A impossibilidade passa então a ser mais um abismo atravessado, mesmo que de maneira atravancada. Morar na impossibilidade é estar preso no purgatório – habitar um lugar que entre os quase vivos e mortos não se salvam todos.

 Os olhos atentos e globais do meu gato me observam. Até ele parece acreditar numa solução [até ele quase sempre tão alheio me diz sim]. O corpo pesa e sobre os ombros parte da minha vontade é sentida. Parte da minha vontade se estende e se alavanca. Suspenso. Além das rotas, dos dias e das tarefas. Levita, se interpõe e é quase dono de si. Quase absoluto e quase consegue superar o mundo.

  Quase.

 É preciso perder a conta, perder o medo, perder o chão, perder o controle. Por fim, perder-se  labirinticamente. Perder a língua e a fala. Fazer malabarismos de silêncio. Perceber que mesmo quando tudo está quieto, ainda há movimento. O mundo está subcutâneo. A correr por debaixo da terra. A vida mesmo quando calada se move nas pontas dos pés [ensurdecedora]

Atravesso desertos.

domingo, 28 de maio de 2017

quinta-feira, 25 de maio de 2017

TEIMOSIA*


Ananda Sampaio**
                Fiz questão de colocar meu livro na estante abraçado ao teu. De alguma forma, agora nossos universos se cruzam. E eu, mesmo sendo uma escritora rota, no fundo do nordeste, posso dizer que agora estou na fileira de mulheres que escrevem e que publicam no Brasil continental. Confesso que não tenho muitas pretensões. Já sou uma leitora dos grandes e isso já é dádiva demais num país de analfabetos e parcos leitores.
                Sei que agora estamos ainda mais próximas. Não mais como escritora-leitora, mas como escritoras, escrevinhadoras de histórias, delirantes da terra, incapacitadas para a vida que não se percebe. Peguei a tua lupa emprestada e depois que te li, descobri que a vida se faz nas pequenas tolices do cotidiano. Naquilo tudo que se localiza num país esquecido, no músculo cardíaco e quase silencioso, acontece na correnteza das minhas veias e nos gestos dos rostos que amamos, mas que não podemos jamais tornar banais.
                Ainda acho estranheza na minha mãe e ira no meu pai. Uma ira mais gelada, sem dúvida, mais ainda assim, um vulcão de dor que explode sem muito barulho. Ainda estranho a minha mãe, mesmo sendo tão conhecedora de suas entranhas. O jeito que segura a vida, me lembra aquelas rochas nas quais a onda do mar se quebra.
                Na minha insensatez e descrença publiquei um livro só para que pudesse ficar mais perto de ti, para que pudesse me fazer de tinta e papel. Talvez ninguém me leia. Carrego essa angústia agora. Eu que tanto quero falar talvez não tenha voz suficiente nem para cruzar o rio Parnaíba. Uma mulher, no nordeste quase recôndito, numa cidade quente e quase nunca lembrada, escreve. Porque se não escrever a vida será um silêncio aterrador.
                Não suporto mais os silêncios das mulheres que vieram antes de mim. Quero causar algum mal estar, trazer desaforos, desnudar a poética que tem mãos de aço para uma poética que não apenas fale de flor, mas que seja flor. E flor só pode ser mulher. Mulher é solo. Desculpa, Lygia pelo desabafo.
                Contudo, eu precisava te dizer. Escrevo como se orasse, a diferença é que não oro mais baixinho. Decidi. Decidi. Não vou gastar minha voz apenas para unir laços familiares e equilibrar os desafetos familiares. Quero usá-la para a política, para os palavrões, para alimentar, mesmo que erroneamente, o raquitismo de minhas emoções.
*Repositório de rascunhos de uma aspirante. @coletivoleitura
**Autora do livro de crônicas O VESTIDO, à venda nas Livrarias Entrelivros e Margarida e também na loja Toccata.

domingo, 21 de maio de 2017

sexta-feira, 19 de maio de 2017

QUESTÃO CAVALAR*


Daniel Cariello

— Bonjour.
— Bonjour. O que vai querer hoje?
— Trezentos gramas de carne moída.
— Très bien. Du steak haché. De boi ou de cavalo?
- Comment?
— Perguntei se o senhor quer carne de boi ou de cavalo.
— Como assim, de cavalo?
— Cavalo. Aquele animal que relincha e mostra os dentes. Muito visto nos filmes de bangue-bangue americanos, quase sempre com um índio em cima.
— Que por sinal acaba sempre morrendo.
— O cavalo?
— O índio, no caso. Ainda mais se o John Wayne estiver no filme.
— Pois bem. O senhor conhece o animal.
— Que animal, o John Wayne?
— Não, céus, o cavalo!
— Pessoalmente, de frequentar a casa, telefonar, dividir uma cerveja, não. Mas sei do que você está falando.
— Então, qual carne moída você quer?
— Como vocês conseguem fazer isso?
— Não é difícil. Tem uma máquina bem ali que mói.
— Não é disso que eu falo.
— E do que é?
— Como vocês têm coragem de comer carne de cavalo?

domingo, 14 de maio de 2017

OBRIGADO, MENINA.


Manoel Emílio Burlamaqui de Oliveira


Estou enganando a mim mesmo...

  Costumo dizer que, nas minhas rodas, um de nossos assuntos é falar da vida alheia e que, nisso, eu sou o cara!
  Um amigo, que se diz tio-avô de uma menina chamada Ananda, apelidou-me, uma vez, de Mago Manu e eu, a partir de então, fico botando força para adivinhar o futuro, como se isso fosse cousa do outro mundo...
  Monteirinho, mais conhecido como Antônio José de Oliveira Monteiro, criou, neste Face, um tal de Brogue da Tia Corina, onde seus amigos, inclusive este escrevinhador, escrevem o que lhes vem na cachola, em forma de poesias, crônicas, contos, anedotas, para esvaziar, um pouco, suas lembranças e garantir vagas para as que vêm fugindo das suas saudades...
  Parece um mercado Troca-troca especial, pois ao tempo em que é individual, passa a ser do mundo todo!
  Mas, voltemos ao assunto que me trouxe a cumprir minha sina de tagarela... Já conhecia Ananda do ano passado, como colaboradora do Brogue. Mas, agora, que já li, vorazmente, 70 páginas, das 140 que compõem "O VESTIDO”, decepciono-me por reconhecer que a casa dos 30 parece ser mais generosa que a dos 80...
  Não vou, de agora em diante, me gabar de falar da vida alheia, a menina falou da vida de todo o mundo, e melhor, sem citar um nome, pois, todo o mundo, é a humanidade! Se procurarmos, nos acharemos lá, surpresos e embevecidos!
  Não me reconheço como um mago, cheio de mágica e de truques, pois uma feiticeira, muito mais poderosa que eu, e meu amigo Merlim, acaba de se apresentar, encantando os que a tiveram visto tirar de si própria, reunindo em páginas, o seu amor à vida, aos viventes e aos que já se foram, numa magia que dá de volta, a cada um de nós, o nosso passado e o todo da nossa própria vida!
  Teria muito, ainda, a falar, especialmente, com ela. Mas, o seu livrinho, o seu livro, o seu livrão, me chamam...
  Obrigado, menina Ananda, por esse presente, com a certeza de que outros virão!

terça-feira, 9 de maio de 2017

O VESTIDO DE ANANDA


A. J. de O. Monteiro
               Ananda é minha sobrinha-neta (é que a mãe dela casou muito cedo e muito cedo a concebeu). Nessa época morava em Brasília (eu) e nossos encontros ocorriam esporadicamente, quando vinha a Teresina em férias anuais. Vi-a bebê, criança, adolescente o que não favorecia a aproximação dado a diferença de idade e, em consequência, interesses diversos. Mesmo nas reuniões familiares, que naqueles tempos eram mais frequentes, mantínhamo-nos em grupos separados. Ela com seus primos e afins e eu com os adultos, ou seja, para usar uma expressão em moda, cada um no seu quadrado. Mas, mesmo assim era impossível não notar aquela garotinha esguia, de olhos negros vivazes, irrequietos... Perscrutadores, mesmo!
               O tempo passou, voltei a morar em Teresina, transferido no trabalho e Ananda estudando, trabalhando e agora casada, com as obrigações próprias manteve nossos contatos na mesma inconstância, até nos encontrarmos em rede social, onde pude perceber um pouco quem na realidade é Ananda. Ananda é diferenciada da “tribo”. Suas postagens, a maioria de interesse literário, com pequenas mais consistentes resenhas livros que lera, bem como reproduzia trechos desses mesmos livros. Vi que Ananda queria compartilhar suas experiências, no intuito, creio, de estimular mais pessoas ao hábito da leitura. Fazendo isso com diversos autores e inúmeras obras, não disfarçava, no entanto, sua predileção por Lygia Fagundes Telles e Clarice Lispector (bom sinal, não?).
               O livro de Ananda – O VESTIDO – não foi surpresa para mim, pois já lera duas ou três crônicas suas disponibilizadas no @coletivoleituras, do qual é integrante e onde, ao fim das postagens anotava como referência pessoal: “Jornalista, estudante e aspirante (suspirante) escritora”. Deixando claro sua disposição de produzir um livro e que bom que o fez.
               O VESTIDO é um livro de crônica, mas, como Ananda, diferenciado. Nelas (crônicas) ela fala de suas angústias, dúvidas, perspectivas e expões suas impressões sobre o mundo e pessoas enquanto narra fatos do cotidiano, do trivial da vida. Da infância, da adolescência e da vida adulta. De coisas que ficaram em sua mente, gravadas como as tatuagens em seu corpo (com licença, Chico). Fala sim, do cotidiano, do trivial e de pessoas amadas ao seu derredor, mas sem pieguice. Ela pega esses momento e, como que reformando um vestido velho, aplica-lhes “uma renda na frente, uns canutilhos e pedrinhas bordadas” oferecendo um excelente livro que, sem receio de parecer um tio coruja, digo: vale a pena ser lido!

P.S. O livro está à venda na livraria Entrelivros e na loja Tocatta.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

JOUE-NOUS RAOUL!*


Daniel Cariello

                Tem coisas que não dá pra traduzir. Por melhor que você chegue a falar uma segunda língua, existem expressões que necessitariam de tanto tempo para serem explicadas que é melhor nem tentar.
                Isso não sai da minha cabeça desde que estava em um festival em Paris e, no meio da muvuca, alguém deu um grito. Uma espécie de senha-para-se-reconhecer-brasileiro-em-show-de-rock-em-qualquer-parte-do-mundo. O "toca Raul!" saiu esganiçado, quase desafinado, mas era um "toca Raul!" legítimo, bem audível.
                Como explicar para um francês todo o significado socioanárquico-místico-irônico-contracultural da expressão?
— Não dá pra explicar.
— Tenta.
— O Raul Seixas é um músico baiano, um pioneiro do rock brasileiro.
— Então as pessoas querem escutar as músicas dele no show?
— Não é isso.
— E por que pedem para tocá-las?
— Elas não estão pedindo para tocá-las. Só estão gritando "toca Raul!".
— Não entendo.
— Eu disse que era complicado.
— Continua.
— O Raul Seixas fez muito sucesso nos anos 70, principalmente pelas músicas em parceria com o Paulo Coelho.
— Paulo Coelho, o bruxo adorado aqui na França?
— O próprio.
— Já até imagino. Eram músicas de meditação, de elevação espiritual, né?
— Na verdade, muitas eram de adoração ao “coisa ruim”.

terça-feira, 2 de maio de 2017

O CANÁRIO E OS PRÉ


A.J. de O. Monteiro
                Era então um jovem, fogoso e inexperiente canário da terra. Há pouco tempo dera meu primeiro Voo e ensaiava os primeiros trinados necessários à conquista de uma companheira. Passava meu tempo voando pela imensidão, parando apenas para alimentar-me com o que a natureza me oferecia à sobeja: sementes e pequenos insetos; parava também para ouvir o canto dos adultos, aprendendo com isso todas as notas que tornam nossa espécie tão admirada.
                Certo dia, esvoaçando a esmo, avistei, no chão, o que me pareceu um lauto banquete. Uma pilha de sementes, ali, a minha disposição... Inexperiente, não titubeei, desci em voo picado, aproximei-me saltitante e comecei a comer avidamente. De repente – vupt – tudo escureceu. Aturdido tentei alçar voo, mas esbarrava em barreiras sólidas. Uma pequena réstia de luz surgiu para minha animação, mas, juntamente com a luz, surgiu uma enorme mão que me agarrou firmemente, a ponto de quase sufocar-me. De nada adiantaram meus guinchados nem as bicadas que desferia naqueles dedos que me pareceram insensíveis à dor.
                Trancado em pequena caixa, percebi estar em deslocamento sem saber para onde, e nem por que razão era submetido à tão cruel tratamento. Mesmo, até então, conhecendo apenas o lado bom da vida, pressenti que o pior estava por vir.
                Cheguei a um lugar onde reinava o caos: pregões aos berros, guinchados desesperados e cantos indistintos de diversas espécies engaioladas. Eram cantos tristes, dolentes... A mesma mão que me prendera agarrou-me novamente e soltou-me numa enorme gaiola atulhada de pássaros, alguns mortos e outros em agonia. Se existe um inferno, pensei, aqui é a antessala: Suja, mal cheirosa... A comida, de péssimo aspecto era jogada no “chão”, misturada às fezes e aos pássaros mortos. Passado algum tempo me dei conta de que aquilo não era a antessala, era o próprio inferno. A comida, como disse, imprópria para o consumo e a água, insuficientes, eram disputada à bicadas, pernada e asadas, tornando o ambiente ainda mais caótico... Insuportável! Sem fome – pois me alimentara bem antes de cair na armadilha – empoleirei-me o mais alto que pude para observar melhor o ambiente exterior. A balbúrdia era ainda maior que aqui dentro. Pessoas caminhando de um lado a outro, gesticulando e falando alto. Ora paravam para observar os pássaros; compravam ou seguiam em frente em suas avaliações. Pareciam todos entendidos do assunto. Pilhas e pilhas de gaiolas expostas à venda, das mais simples as mais sofisticada. Havia gaiolas para todos o gostos e bolsos. Distraído, não vi aquela mão entrar na gaiola e novamente subjugar-me, agora para ser entregue ao comprador. Este me colocou em uma caixinha de transporte mais confortável, asseada e melhor arejada que a que me trouxe. Novamente em movimento, afastando-me do barulho e mau cheiro da feira. Não demorou, chegamos ao que imaginei ser o ponto final da jornada. Fui então transferido para uma gaiola grande – daquelas mais sofisticadas que vira na feira – e sem nenhum outro pássaro além de mim. Em que pese certo alívio, não me alegrei. Ainda era uma prisão; bonita, mas uma prisão. Indaguei-me: estarei para sempre afastado do meu espaço natural? Das árvores e do convívio com meus semelhantes em liberdade? Era o que me parecia...

segunda-feira, 10 de abril de 2017

PATETA


Isaias Coelho Marques

Poesia
São palavras
Descontroladas
Mal amadas
Pretensamente
Organizadas
Por esse esteta:
O poeta!

sábado, 8 de abril de 2017

A GUILHOTINA DE LISBOA*


Daniel Cariello**

Uma revisão histórica (tem coisa mais na moda do que revisão histórica?) atribui a invenção da guilhotina não aos franceses, mas sim aos portugueses. Os patrícios de Robespierre teriam-na apenas aperfeiçoado, ao descobrirem que ela dificilmente funcionaria em Portugal.
– Manoel!
– Ó pá, Joachim!
– Está cá?
– Não, estou lá.
– Então venha cá, ora pois.
– Pronto. Cá estou, Joachim.
– Pois diga-me o que é isto?
– Só digo se primeiro me disseres porque te chamas Joachim com ch.
– Não enches, Manoel. Estamos em Lisboa, no século dezoito. Queria que me chamasse como, José Sarney?
– Tens razão. Sempre pode ser pior.
– Sempre, ó pá.
– Mas afinal, o que é essa geringonça?
– Chama-se tomba lâmina, moderníssima invenção.
– Serve para quê, ó Joachim?
– Dizem que é para cortar o bacalhau mais rápido.
– E como funciona, ó pá?
– É simples, ó Manoel. Primeiro, rodas as pás dessa manivela até a lâmina suspender-se. Segundo, colocas o…
– Não entendi.
– O que foi agora, Manoel?
– Dissestes que devemos rodar as pás da manivela ou que devemos rodar, ó pá, a manivela?
– As pás, ó pá.
– Pois sim.
– Posso continuaire?
– Pois não.
– Segundo, colocas o bacalhau aqui. Terceiro, soltas as pás. Quarto, retiras o bacalhau já cortado e o levas para a Maria cozinhá-lo.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

ÓCULOS BIFOCAIS*



 Daniel Cariello**

  Talvez seja melhor você usar óculos bifocais, sentencia o oftalmologista, cujas palavras ganham ainda mais peso por precisarem abrir espaço entre os prateados fios de seu bem fornido bigode para poderem escapar da boca, um bigode desses merece ser escutado com atenção, penso eu, de dentro de minha rala barba.

  Bifocais, doutor?, bifocais, meu jovem, levanta o olho pra ver longe, abaixa pra ver perto, serve pra admirar estrelas e ler livros, você está com a vista cansada, passou dos quarenta, daqui pra frente só vai piorar, vaticina o dono do vetusto esfregão suspenso sob as discretas ventas, um oftalmologista que não usa óculos, fato que me faz voltar sobre minha primeira impressão e coloca uma dúvida sobre sua experiência no assunto, pois nesse mundo não se pode menosprezar a importância do empirismo.

  Adivinhando o meu pensamento, ele diz vou te provar novamente, lê ali aquelas letrinhas na parede, F, O, R, A, T, E, M, E, R, respondo, e agora as miúdas nesse papel, G, O, L, P, I, S, T, pode parar, a intenção é ótima, mas não é nada disso que está escrito, pra corrigir, só mesmo com duplo foco, vai fazer ou não vai fazer?

  As palavras do médico possuem a densidade e a imponência do bigode que atravessam, mas nem assim me convencem, depois de aceitar óculos bifocais, penso, a decadência é rápida e o passo seguinte será fraldas geriátricas, doutor, vamos fazer só pra ver de longe, tem certeza?, tenho.

  Uma semana depois, o sujeito da ótica liga, seu Daniel, seus óculos estão prontos, ele diz, pode vir buscar, vou buscar, experimento, só vejo longe, aqui na frente ficou tudo embaçado, é isso mesmo?, reclamo, é isso mesmo, o sujeito da ótica responde, pra ver de longe e de perto tinha que pedir pro oftalmologista receitar bifocal, fuck!, calo.

  O sujeito da ótica levanta os ombros e os cantos da boca em demonstração tanto de solidariedade quanto de não posso fazer nada por você, seu Daniel, coloco os novos óculos, tropeço na saída da loja, não vejo o maldito degrau, tiro os novos óculos e os guardo na caixa, onde agora descansam a maior parte do tempo, ficam tanto por lá que já nem sinto mais falta deles.

  Isso me leva a crer que, apesar dos fios brancos do doutor Bigode e de todo o conhecimento da medicina, minha visão entrou numas de melhorar, rio feliz, enquanto perco novamente o ônibus, essas placas com os números estão cada vez menores, diabos.

* Publicado Originalmente no Site Quadrado Brasília, em 30/03/2017
**Leia também as crônicas de Paris, escrita pelo mesmo autor, no livro Chéri à Paris www.cheriaparis.com.br

quarta-feira, 22 de março de 2017

NÃO-CONFISSÃO


Isaias Coelho Marques

Nunca sou
Sincero
O pouco que
Falo de mim
É obscuro
 Pouco claro
Quase nada
Deixo de fora
O essencial
O de dentro
Visceral
Por isso
Falo de mim
Quase nada
Boca fechada
E a sensação
Que o não dito
Fica pelo
Escrito