segunda-feira, 4 de junho de 2018

COMO FALAR FRANCÊS (SEM FALAR FRANCÊS) [CRÔNICA] *



Daniel Cariello**

                Se você quer fazer todos acreditarem que aprendeu francês na Sorbonne, anote as dicas a seguir
                Ao chegar a Paris, meu francês não era grandes coisas, mas mesmo quando não entendia o que falavam, sempre mantive a pose de totalmente fluente, fruto de algumas técnicas que desenvolvi.
                É verdade que existem livrinhos de consulta rápida com frases prontas em diversas línguas. Normalmente são divididos por temas, como “chegando à cidade”, “saindo para jantar” ou “pedindo informações”, ótima opção para garantir ao menos uma comunicação básica.
                Porém, se você quer fazer todos acreditarem que aprendeu francês na Sorbonne, anote as dicas a seguir. Para ser tão didático quanto o monsieur Gérard, dividi os ensinamentos em capítulos.
Cinq minutes de merde
O que é
                A primeira técnica, batizada de Cinq minutes de merde, foi criada por causa de um fato estranho que acontecia comigo. Mesmo que o assunto fosse fácil e as pessoas não falassem muito rápido, eu demorava cinco minutos para dar um boot no meu sistema operacional interno e ajustar o cérebro à conversa. Era como um rádio meio fora da estação, que você pesca algumas palavras, mas não consegue entender o contexto.
O que fazer
                Primeiramente, fique com um leve sorriso na cara o tempo todo. Dá um ar de quem está por dentro do assunto. Não exagere, pra não ficar com expressão de idiota. Olhe para quem está falando, mas não muito, pois ele pode te pedir uma opinião. O ideal é balançar um pouco a cabeça e ficar atento às outras pessoas da roda. Se elas rirem, ria também. Se fizerem cara de espanto, coce o queixo.
                Quando entender um pouco, solte um "je vois" ou um "oui" de vez em quando. São os equivalentes ao nosso "sei, sei...", que não quer dizer nada, embora diga tudo.
                Mas, quando boiar completamente, marque um ponto no horizonte e fixe o olhar. Se te perguntarem alguma coisa, arregale os olhos e repita a seguinte frase: "Pardon, j’étais inattentif". Em bom português, "Desculpa, estava desatento". Porém, NUNCA peça para repetir. É o momento ideal de procurar pelo banheiro.
Faisant des ronds dans l’espace
O que é

A MINHA CADEIRA PREGUIÇOSA



Manoel Emílio Burlamaqui de Oliveira

                Quem já possuiu essa coisa gostosa, também conhecida como espreguiçadeira?
                “Meio-deitado nela, meu pai me contava estórias de ‘trancoso” e eu, quantos anos depois, me pergunto, repassava –as e acrescentava outras , para filhos e netos...
                Raposas que bebiam cachaça e ficavam bêbadas dando gaitadas e rolando pelo chão!
                Macacos que roubavam milharais e bananais e botavam um vigia, para avisá-los quando vinha alguém, e batiam no “vigia” se não ao avisasse, a tempo de fugirem de visitantes inesperados.
                Tatús que garantiam que o seu buraco era uma fortaleza, de onde ninguém o arrancava...
                Gaviões que se apavoravam quando eram perseguidos por Bem- te- vis, pássaro querido de seus colegas por costumar salvá-los das aves de rapina!
                Ah! Minha cadeira preguiçosa, onde tantas vezes dormitei e sonhei!
               Sonhos aonde os bichos vinham falar comigo... E, tenho certeza, tornavam-se meus amigos!
                Vagarosamente, iam se achegando em torno de mim, contando como suas vidas mudaram depois de tê-los salvos de preserpadas em que se meteram...
                A raposa, salva por mim dos caçadores que deixaram a cachaça numa bacia, para prendê-la bêbada, e mata-la, garantiu que deixou de beber e, nunca mais, comeria das minhas galinhas...
                Um macaco, bastante crescido, que foi vigia, enquanto seus pareceiros roubavam milho e banana dos quintais alheios, e acordou com um tiro meu, para alertar a macacada de que intrusos, não benvindos, estavam chegando, trouxe-me o recado de que ninguém mais botaria a mão nos frutos de meu quintal...
                Rolinhas, canários, pardais, pintassilgos, sabiás, e outras avesitas, cantando de alegria, agradeciam-me pela acolhida carinhosa que dei a um bem-te-ví amigo e à sua família...
                E meu amigo, amarelo e preto, com a pousada que lhe proporcionei , onde impera m a segurança, a alegria, o amor e a paz, juntava-se aos outros para louvarem, com seus cantos, o Criador!
                E, então, senti uma beliscadela e foram-se embora os sonhos... Apareceu a fêmea do bicho-homem, (perdoe-me minha querida esposa) atriz nº 1 da nossa vida! Dona de um relógio implacável!: “O café estar na mesa” “Desocupe o banheiro!” “Cuidado pra não atrasar pro emprego!” “Hoje é dia da feira”, “Apaga a luz e vamos dormir, que a energia tá muito cara” e, etc. etc...
             Ainda bem que a semana tem sábados e domingos, além dos feriados, dias em que a preguiça me transforma , mais uma vez, em dono daquela cadeira gostosa, aonde bebo, sem sair dela, minha pinga, como meus torresmos e pasteizinhos com uma loura suada, e deixo meus amigos com inveja!
E volto aos meus sonhos...!

quinta-feira, 31 de maio de 2018

O PANELAÇO DA MAZÉ E OUTRAS CONSIDERAÇÕES



A. J. de O. Monteiro
                Como em todos os sábados de nossas vidas, o vizinho chega ao muro que separa nossas casas e grita:
— Ô Zé, vamos tomar umas geladinhas aqui embaixo do cajueiro?
— É pra já, Asdrúbal, vou pegar um chuveiro e vou.
                Juntos fomos até o depósito de bebidas do Chiquinho, logo na esquina, e compramos uma dúzia de cervejas – seis pra cada um como manda a regra – geladíssimas, como também manda a regra. Colocamos as “loiras” na geladeira e aboletamo-nos sob a generosa sombra do cajueiro do Asdrúbal. Àquela altura do ano o cajueiro estava carregado de dulcíssimos cajus e assim começamos os trabalhos sabatinos saboreando a geladinha e os cajus. Entre um gole e uma mordida na fruta, falávamos de futebol, reclamávamos dos políticos, dos preços da feira e da ranzinzice das “patroas”, sempre azedando nossos sábados com reclamações banais. E por falar nisso, sem mais nem menos, chega ao reduto a D. Mazé, a “patroa” do Asdrúbal, anunciando com todas as pompas e circunstâncias:
— Asdrúbal, vou para o panelaço protestar...
— Que estória é essa mulher? Vai protestar do quê ou de quem?
— Ora, seu tapado, claro que é do governo dessa presidenta aí que andou dando umas pedaladas... Onde já se viu presidenta pedalar? Presidenta tem que andar de carro preto e não pedalar por aí de bicicleta... Tá todo mundo contra... Tá todo mundo pedindo o “impinge” dela. Vamos bater panelas até ela se mandar...
— Para de falar bobagem Mazé. Vai bater panela lá na cozinha fritando aquelas piabinhas que eu trouxe ontem da feira...
— Piabinha uma ova! Vou é bater panela ao lado das madames da alta que estão todas lá, chiquérrimas com suas panelas de “teflon” e suas colheres de bambu asiático. Vou tomar um banho, me vestir de verde e amarelo e passar lá no supermercado Supimpa e me equipar tal e qual as madames: panela de “teflon” e colher de bambu asiático...
— Uma ova digo eu! Tu sabe quanto custa uma panela dessas? Eu sei. É caríssima. E essa tal colher de pau asiática? Nem eu sei, mas deve custar uma fortuna. Já que queres ir pra esse tal panelaço vai, mas pega teu equipamento aí mesmo na cozinha e vai, pombas!
— Nem pensar, Asdrúbal, nem pensar! Nunca que eu vou pra uma manifestação de gente da alta, bater panela velha, amassada e empretecida de tanto uso e além do mais com uma colher de pau de feira livre! Nem pensar! Ou calça de veludo ou bumbum de fora.
— Diabos! Faz como quiser mulher, mas depois não venha reclamar que faltou grana no final do mês...
— Ora, todo mês falta mesmo.
                Um Tempinho depois, ela veio se despedir, ou melhor, exibir seu uniforme de protesto: Uma camiseta da “Skol” comemorativa da copa do mundo de 1994, calça “jeans” e mal se equilibrando num salto estilo Luiz XV. Pensei comigo mesmo: vai dar merda! Asdrúbal balançou a cabeça e falou entre dentes pra ela não ouvir: - “Vai-te maluca, vai bater panela no raio que a parta”!
                E por ali ficamos com nossa cervejinha, nossa prosinha despolitizada e, agora, mastigando as crocantes piabinhas fritadas pela Isaura, minha patroa, mas sob os protestos de costume: - “Todo sábado é a mesma coisa, tu tomando cervejinha com o vizinho e eu aqui sozinha cozinhando para os filhos”. Deverias – disse ela – “era pegar tua trouxa e se mudar de vez para a casa do Asdrúbal”. Já nem ligava. Tem sido sempre assim nessa travessia de trinta e tantos anos de casados: Ela reclamando da minha ausência e eu reclamando da presença excessiva dela. É como nos versos de “O CASAMENTO DOS PEQUENOS BURGUESES”, do Chico Buarque: “Ele faz o macho irrequieto/Ela faz crianças de monte/Vão viver sob o mesmo teto/até secar a fonte”...

quarta-feira, 16 de maio de 2018

PERNAS TORTAS*




*No dia da convocação pra Copa, minha crônica sobre a última partida de um dos maiores jogadores de todos os tempos e protagonista máximo do mundial de 62: Mané Garrincha.

Daniel Cariello – Escritor**
14 de maio às 14:25

— Querem ver o Mané Garrincha jogar? - Perguntou meu avô. - Queremos! – Respondemos quase em uníssono meu pai, meu irmão e eu.
A proposta nos pegou de surpresa em meio a um almoço de Natal. Era uma chance imperdível de ver ao vivo o jogador sobre quem já havia escutado inúmeras histórias, trazidas pela memória infalível de meu pai e pelo lirismo de meu avô.
— Ele tem as pernas tortas, por isso mesmo ninguém conseguia pará-lo. Foi o grande craque da Copa de 62. – Dizia um.
— E chama todos os seus marcadores de João. Era comum deixá-los tão perdidos que acabavam caindo no campo, desconcertados. – Completava o outro.
— Uau – Espantávamos meu irmão e eu, garotos que sonhávamos jogar na seleção.
                A partida ocorreria em Planaltina, naquele 25 de dezembro de 1982. Era uma das exibições que Mané passou a fazer depois de pendurar as chuteiras, para descolar alguns trocados. Compramos os ingressos sem dificuldades, não estava cheio, e tratamos de escolher um bom lugar, do lado pelo qual ele atacava.
                Já com quase 50 anos, Garrincha não tinha mais o mesmo fôlego e nem a mesma saúde de seus anos de ouro, mas ainda era capaz de levantar as arquibancadas. Como ocorreu no momento em que dominou a bola no lado direito do campo e parou diante de um João, exatamente em frente onde estávamos. Ficaram, Mané e João, um encarando o outro, estáticos, a pelota entre eles, naquela calmaria que antecede a tempestade. O público prendeu o fôlego.
— Olha lá, Pedro, as pernas dele são tortas de verdade! – Sussurrei.
— E o que ele vai fazer agora? – Quis saber meu irmão.
— Não sei...

POIS É, SEU ZÉ...




Marcus Spinelli/A. J. de O. Monteiro

No Pará e no Amazonas riacho é igarapé.
Em são Paulo bairro e município, respectivamente, é Tatuapé e Taubaté.
Na Bahia praia bonita e comida boa: Itacaré e acarajé.
Em Pernambuco o arigó fala "sarapaté e coroné".
No amor faça-o em pé se der e se quiser.
Homem casado com mulher braba chega em casa atrasado na ponta do pé.
Quem der rasteira leva um pontapé.
O pai de Jesus Cristo foi são José.
A festa junina boa tem fogueira e buscapé.
Quem é esperto é, quem não é, é zé mané.
O rei do futebol foi o Edson, por apelido Pelé.
E diferente foi garrincha, que não deixava “joãos” em pé.
A dança do nordestino, dentre outras, é “rastapé".
Pra pegar peixe mais fácil se usa o "jereré".
O lema da revolução francesa foi "Liberté, Egalité, Fraternité".
Para o espirro ser forte tem que cheirar o rapé.
Meninos de outros tempos satisfaziam a gula com tareco, mariola e picolé.
Planta da família das rubiáceas é mais conhecida como café.
E a galinha d'angola, no Piauí é capote e em Pernambuco é guiné.
O que faz fumaça é cigarro, cachimbo e chaminé.
O que abre e fecha a corrente elétrica é relé.
Quem nasce rico é classudo, quem nasce pobre é ralé.
A base da montanha também é conhecida como sopé.
Chuteira, tênis e ki chute só me fizeram calo e chulé.
E para finalizar, improvise como quiser.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

A MINHA PRAÇA



Manoel Emílio Burlamaqui de Oliveira.

                É cheia de areia. Rodeada de calçadas por todos os lados. E as calçadas cheias de bancos.
                Bancos usados para sentar. Bancos usados para descansar. Bancos usados para dormir. Que saudade!
                Andantes cansados, andantes sem moradas, andantes sem pousadas, andantes abandonados. Andantes dependentes dos corações alheios!
                Bancos mudos, mas ouvintes. Ouvintes de choros, ouvintes de cantos, ouvintes de queixas e de agradecimentos, de quem deles se utilizou!
                Bancos mal pintados por uma Gata Borralheira, com cinzas da cabeça aos pés, que por ali passou!
                E que depois foi pintada pela Velha Cachimbeira, que a tudo assistia. E que, em nome dos bancos, da Borralheira, se vingou!
                Tudo feito com risadas e alegria, vingança de mentirinha, ao contrário, o que não faltava era amor!
                Essa praça não é só minha, é de todos os que têm coração para abrigar a quem, por ela, procurar.
                E estiverem dispostos a se entregarem a Deus, segundo a Sua vontade e jamais, regatear!

quinta-feira, 3 de maio de 2018

MOONWALKE*



A. J. de O. Monteiro

                Corria o ano de 1993, e a música predominante era ainda aquela que foi intensivamente massificada pelos meios de comunicação nos anos 80 o “pop music”. Tal movimento musical dominava ares e lares mundo afora. Nomes como Madona, George Michael, Olívia Newton-John e muitos outros, e, dentre todos, se destacava, Michael Jackson como ídolo maior da molecada a partir dos 7, 8 anos de idade que, Assim, tão cedo, deixavam de lado as cantigas de rodas para balançarem nesse ritmo frenético. Minha filha, com pouco mais de 7 anos, curtia adoidada a música que veio do “norte”. Nas festinhas de aniversários dos colegas de escola era só o que se ouvia, tocadas sem parar e sem parar acompanhadas pelas estridentes vozes dos convivas. Isso, no entanto, trouxe um fato positivo excluindo de tais festinhas as figuras enfadonhas (para os adultos, claro) dos animadores de festas infantis.
                Lá no nosso apartamento em Bsb, aquela menininha de cabelos cacheados cantava e dançava por todos os ambientes e por todo seu tempo livre, ao som do “pm”. Até ao estudar, o fazia com o “mp-3” enfiado nos ouvidos, ignorando os protestos, meus e da mãe, afirmando que a música ajudava (?) na concentração e como vinha tirando boas notas nas provas, resolvemos contemporizar e apenas observar seu rendimento na escola.
                Em meados daquele ano (1993), pouco depois de completar seus 7 aninhos, comemorados nos moldes da época – “pop music” para todos os gostos – os deles é claro começa a ser noticiada a vinda de MJ ao Brasil com o show Dangerous Tour. A única apresentação estava marcada para outubro, em são Paulo, no estádio do Morumbi. A pequenina entra em êxtase, era só no que falava. No café da manhã, no almoço e no jantar... Era seu assunto, a toda hora, a todo o momento...
                Era um domingo tipicamente brasiliense. Após o almoço a soneca e depois concentração para assistir futebol pela Televisão, não importava qual jogo fosse. Aboletava-me no sofá em frente ao aparelho, cervejinha gelada e deixa a bola rolar. Ela aproximou-se com aquele olhar lânguido que só ela sabia fazer quando queria alguma coisa:
— Painho... (só me chamava assim quando a facada era das grandes).
— Oi filha, o que é?
— Já ouviu falar sobre o show do MJ?
— Já, por quê?
— É que estou querendo ir...
— Mas, minha filha, o show será em São Paulo, é distante e as passagens aéreas estão muitos caras, além de uma série de outras despesas... Hospedagem, alimentação, ingressos, etc., etc.
— Vamos de ônibus, então.
— Mesmo assim vai ficar muito caro, além de ser uma viagem cansativa.
— Tá bom – respondeu amuada.
                Dias depois, nova carga rebatendo todas as minhas argumentações.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

DEPOIS DE FEITO



Marcus Spinelli

— Depois de feito ninguém sabe o trabalho que deu ao sujeito
— Depois de feito ninguém sabe o entulho que gerou para ser feito
— Depois de feito irão aparecer vários sujeitos donos do feito, se for bem feito
— Depois de feito fica fácil saber como foi feito
— Depois de feito todo mundo vira prefeito
— Depois de feito o universo tem todo o direito
— Depois de feito a majestade fica sem efeito
— Depois de feito a vontade perde o efeito
— Depois de feito é preciso descansar o peito
— Depois de feito o bombom vira confeito
— Depois de feito não tem mais jeito
— Depois de feito replicar é um direito
— Depois de feito a solução repousa no que foi feito
— Depois de feito quem leu continue a prosa, mas no mesmo leito...

SOBRE “HISTÓRIAS DE ÉVORA” DE ELMAR CARVALHO




Poncion Rodrigues

   Na Saga de Marcos Azevedo, o autor nos reconduz às histórias de aprendizados e encantamentos adolescentes de cada um de nós, que tivemos a felicidade de viver aquela fase em tempos de provinciana calmaria.
   Desde a experiência contemplativa do corpo de uma certa Neusa, largada em generosa exposição na rede em que dormia até a primeira excursão, de fato, conduzida pela “sacerdotisa” Doralice, talentosíssima condutora de prazeres antes apenas imaginados pelo nosso herói, nos sentimos, por vezes, narradores e personagens dessas histórias gostosas tão bem contadas pelo mestre Elmar.
   A continuação da aventura existencial de Marcos Azevedo, com u pouco da história de cada um de nós, o leitor encontrar com o livro em mãos, que recomendo com entusiasmo ao que gostam de sentir saudades de si próprios, apesar da cruel hostilidade do mundo que hoje nos cerca e amedontra.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

PASSAPORTE



Isaias Coelho Marques

Dentro de mim
Não dorme
Um pássaro azul
Dentro de mim
Não há norte nem sul
Apenas esse
Passaporte de ida
Doce ferida
Chamada morte

sexta-feira, 9 de março de 2018

INVEJA, VAIDADE E BENGALAS.



Manoel Andante
       Tenho uma comadre muito querida, que está mexendo com minha cuca, por causa de umas bengalas que me mandou, tornando-me um vaidoso e, incrível, um tolerante dos invejosos... Estarei caducando?
       Vejam só: as bengalas são lindonas, chamam a atenção por onde passamos... “O Andante tá ficando rico”, dizem uns. “Tá ficando é metido a besta” dizem outros. “Ele devia se dar a respeito, querendo ser um dandy, nessa idade”, acrescentam outros safados!
E, assim, tudo por inveja de um objeto, tornei-me, também, objeto da inveja alheia...
         E vaidoso todo. Lembram-se de antigamente, quando diziam “falem mal de mim, mas falem”? Pois é!
          "Cumadi", a inveja dos outros mata nós? Se mata, manda outra só daqui pruns 5 anos...
          Deixa viver mais um pouquinho, que ter amigos do teu quilate, é uma riqueza e um presente de Deus!
          Beijos!

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

POÉTICA



Isaias Coelho Marques


O poema
de léguas cantantes
à luz de vela
irrompe a noite.
Vai meu poema
escorrer por entre almas alheias
leva contigo meu sémen de amor

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

VAI PASSAR*


Daniel Cariello**
            Carnaval esse ano?, não tô no clima, ainda mais com esse baixo astral em alta no país, vou passar rapidinho em um ou dois blocos, porque não tem como fugir e não quero parecer ranzinza, chego, tomo uma cerveja, canto oh, jardineira, por que estás tão triste, mas o que foi que te aconteceu?, tomo mais uma cerveja e o rumo de casa, vai ser assim, se vai.
            Chegou convite pra concentração pré-carnaval na casa de amigos, prédio ao lado do meu, primeiro andar, o bloco se reúne embaixo da janela deles, depois do almoço, perfeito, dá pra ficar de camarote, cumpro a meta e nem preciso descer, pra você ver como me esforço, até coloquei uma camiseta bem colorida dos Beatles, tá mais do que bom.
            Já dá pra ouvir a música na rua, vou levar duas garrafas grandes de cerveja, não, vou levar três, não quero beber muito, mas o pessoal pode animar e ninguém gosta quando falta bebida na festa, bom, vou levar logo quatro, na pior das hipóteses, se sobrar, fica pros donos da casa, ou então a gente bebe junto outro dia, quando o carnaval tiver passado.
            E aí, tudo bem, cheguei tarde?, aqui, cinco cervejas, põe no congelador, se eu quero purpurina e máscara?, vai, purpurina, mas máscara não rola, tá bom, vou guardar no bolso pra uma ocasião, se ela chegar, mas não acredito muito nisso, ei, e aquela cachacinha em cima da mesa, posso provar?, é da boa, desce esquentando, agora preciso de uma gelada, pra esfriar a garganta.
            O bloco também esquentou, dá pra ouvir como se estivesse dentro do apartamento, vou dar uma espiada da janela, quanta gente!, todo mundo fantasiado, olha aquele homem aranha, coberto da cabeça aos pés, deve estar derretendo, mais esperto e menos criativo é o nadador, só de sunga, touca e óculos, sete, oito, nove mulheres maravilha, dez, não, onze, sei lá quantas, esses músicos são bons, hein?, ó ali o Zé Luís e o Pedro com sua eterna clarineta, ei, Zé, não ouve, claro, mas me viu, se eu vou descer?, acho que não, aqui tá bom, a enfermeira acha que eu faço mímica pra ela e vira a esquina dando tchauzinho.
            A campainha toca, a porta se abre e entram dez pessoas, de onde elas saíram, quem são, e o que é esse Cordão das Mulheres Rycas?, e esse cara vestido de segurança, que figura, a sineta soa de novo, outra dezena de rycas adentra, o segurança controla a passagem do grupo, mais cinco minutos e a terceira onda chega, dessa vez já é o segurança que abre a porta e diz pra irem se acomodando, o banheiro é à esquerda e a cozinha fica no fim do corredor.
            Uma filial do bloco se apropria do apartamento, tiro a máscara do bolso e a visto, segurando o copo de cerveja entre os dentes, tenho a impressão de que ninguém conhece mais ninguém, viro outra cachaça, e em meio a aperto, suor, lantejoula, fumaça, serpentina e quem é você, adivinha se gosta de mim?, o carnaval chega e arrebata a todos como uma força da natureza, arrastando de forma impiedosa rycas, anônimos, piratas, bailarinas, bêbados, crianças, palhaços, roqueiros, toda a gente para a rua, porque a vida é curta e o carnaval mais ainda.
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*Publicado originalmente há um carnaval, no Quadrado Brasília
**Leia também as crônicas de Paris, escrita pelo mesmo autor, no livro Chéri à Paris www.cheriaparis.com.br