Daniel Cariello*
No
espaço de uma semana, fui tocado pela Conceição. Por duas delas, para ser mais
exato. Não falo da conceição no sentido religioso, mas sim de duas mulheres que
levam esse nome em suas certidões de nascimento. Ambas são negras, resistentes,
escritoras, criadoras de beleza.
A
primeira me chegou como quem vem das montanhas. A mineira Conceição Evaristo
lançou no Rio de Janeiro uma edição bilíngue, em português e francês, do livro
"Poemas da recordação e outros movimentos", em um evento pensado em
todos os detalhes para homenagear a grande escritora que ela é, com
colaboradores, editores, admiradores e um grupo que adaptou em música sua obra
poética. Eu estava lá, na plateia, compartilhando com outros presentes um
desses momentos que nos dão a certeza de que a arte, a cultura e os encontros
nos ajudam a nos guiar nesses tempos de escuridão. No final, como bom tiete,
pedi para autografar meu exemplar de "Becos da memória". E ela, com
toda sua generosidade, escreveu o seguinte: "Daniel, celebrando nosso
encontro nas vias da literatura, meus agradecimentos. Conceição".
A
segunda me chegou como quem vem da floresta, carregando em seu sangue as
heranças negra e indígena. A manauense e brasiliense de adoção Conceição
Freitas, jornalista, escritora e amiga, é uma dessas pessoas que todos que
gostam de Brasília e de literatura precisam conhecer. Além de ser uma grande
cronista, que derrama em seus textos o amor que sente pela capital do Brasil,
onde mora há décadas, é também a proprietária de uma pequena e linda banquinha
de jornais, localizada na 308 sul, a superquadra modelo de Brasília, única
construída exatamente como no plano original de Lúcio Costa. Conceição Freitas
comprou essa banca e a transformou em uma livraria dedicada à literatura sobre
e de Brasília. Lá estão obras de poetas, romancistas, cronistas (tem até livro
meu!), arquitetos e de muita gente boa que se dedicou e se decida a construir
uma memória dessa cidade ainda nova. Mais do que uma banca, um local de
encontros e afetos. E até, ouso dizer, um novo ponto turístico da cidade.
Acontece
que a banquinha da Conceição Freitas foi vandalizada esses dias. Alguém cortou,
a golpes de faca ou canivete, um painel que fica do lado externo da banquinha.
Um mapa estilizado de Brasília, caprichada ilustração da artista Anna Mendes,
que sai desenhando cidades pelo mundo, feito sob medida para colorir a banca e
a quadra. Foram dois rasgos em um dia e dois rasgos no outro. Um ataque feito
por alguém que provavelmente não suporta tudo o que a arte e aquele lugar
representam: a amizade, a poesia, a resistência.
No
Facebook, Conceição Freitas escreveu: "cortaram o mapa da banquinha da
308. Cortaram meu coração". Eu completo: cortaram o coração de todos nós
que amamos Brasília, a literatura, a cultura, o debate, o afeto. De passagem
pela capital, não perderei, nesse sábado à tarde, 9 de novembro, o abraço
coletivo na banquinha e na sua dona, com a presença de escritores, poetas,
artistas, jornalistas, músicos e quem mais quiser aparecer por lá e demonstrar sua
solidariedade. Afinal, como me ensinou a outra Conceição, a Evaristo, é
importante celebrarmos nossos encontros na via da literatura.
Da
banquinha atacada, faremos uma fortaleza.
Do
mapa rasgado, faremos estandartes de resistência.
Dos
corações cortados, faremos uma colcha de afeto.
Vamos
sem concessões. E com Conceições.
--
Lembrando que as crônicas também são publicadas no site do
Diário do Rio.
*Leia também as crônicas de Paris, escrita pelo mesmo autor, no livro Chéri à Paris www.cheriaparis.com.br,

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