sábado, 11 de julho de 2020

CASAS, RUAS E PRAÇAS

Praça Rio Branco na década de 50
Ponte Estaiada inaugurada em 2010















A. J. de O. Monteiro
                Agosto, 1954. O menino, aos três anos, com a ajuda do irmão imediatamente mais velho empurra o baú de roupas para junto da janela, sobe e alcança o peitoril para observar a cidade e ganhando, por essa prática, o apelido de “rato de gaveta”. Sua cidade vai até onde sua vista alcança daquele posto: Um pedaço de rua calçada com paralelepípedos azulados que ele achava bonito. À sua frente, do outro lado da rua, um casarão protegido do sol por uma enorme – tudo era grande aos seus olhos de então – amendoeira que  alguns chamam de castanhola devido, talvez, os seus frutos lembrarem o instrumento musical das dançarinas de flamenco. Estica o pescoço, olha para a esquerda e vê mais um pedaço da rua e mais duas ou três casas também protegidas por amendoeiras; volta o olhar para a direita e tem mais um pedaço de rua; mais duas ou três casas e mais amendoeiras. Foi dali que o menino viu um homem correndo, da direita para a esquerda, balançando os braços feito um boneco de posto de gasolina enquanto gritava: — “Mataram o Getúlio!... Mataram o Getúlio!... Esta é a mais remota lembrança que o menino tem da sua cidade... Apenas um pedaço de rua, a Rua da Estrela, onde nasceu.
                O tempo vai passando e o menino vai conhecendo outros pedaços de sua cidade. Levado pelas mãos dos outros vai à escola – um velho sobrado com assoalho de madeira que gemia ao ser pisado por ele. A o lado, a Praça João luís Ferreira ornada por belos fícus e cortada por passeios de seixos.
                Já andando sozinho o agora pré-adolescente vai para o Liceu Piauiense cursar o ginásio. Em frente ao imponente (mesmo) prédio do Liceu, uma praça que tem nome de um personagem da política, mas só para constar, pois até hoje é conhecida como Praça do Liceu que apesar de ter sofrido várias modificações desde que ele a viu pela primeira vez, continua bonita e agradável. Apenas um barzinho a lhe quebrar a harmonia. Um prefeito louco (mesmo), construiu aquilo. No ginásio seus conhecimentos, assim como a cidade, expandiram-se e soube então que Getúlio não foi assassinado e sim, suicidou.    
                Naquele período – do ginásio – foi tempo de futebol, dos jogos intercolegiais, de salabol (hoje futsal) e das peladas em campos de terra com traves improvisadas e marcações imaginárias: Brilhante, Matinha, Fiação, Barri e Palha de Arroz que tinha no centro um gigantesco Angico Branco – mais um adversário a ser driblado pelo habilidoso (mesmo) craque. Tinha também o campo da Cadeia Pública, gramado, com marcação real, mas que precisava de autorização para usar e de cigarros para os detentos, como precaução.
                Os anos foram passando e o futebol deixou de ser o principal interesse do adolescente... O jogo é outro: as matinês no Cine Theatro 4 de setembro; no Cine Rex e, mais adiante no Cine Royal, o primeiro da cidade com ar condicionado, poltronas estofadas e sessão contínua... Após o cinema o lanche na “Bomboniere” e o volteio na Praça Pedro II, conhecida no meio apenas por “pê dois”. O volteio consistia num quase balé onde as moças andavam em círculo, no sentido horário e os rapazes, num círculo maior, em sentido anti-horário. Nesse balé os olhares se encontravam, sorrisos eram trocados ou rejeitados com “rabanadas”* demonstrando desagrado. Da praça ao Clube dos Diários finalizar o domingo com a “tertúlia”, se embriagando de “cuba libre” e confirmar os olhares correspondidos, dançando de rosto colado ao som da banda “Barbosa Show Bossa” cujo prefixo era “Creme Batido” do Herb Alpert &  Tijuana Brass. À meia noite a banda anunciava, aos som de assovios de protestos, o fim da tertúlia com o mesmo “Creme Batido”. Era a hora da dispersão. As moças iam pra casa e os rapazes tomavam o ruma do casario da Rua Paissandu onde o menino, sob luz difusa, embriagado por estranhos perfumes e abraçado por braços frios se perdia ao som de boleros bregas atacados pelo “Regional do Maestro Caquinho” e descobria novas emoções.
                Maio, 1973. Um hiato de 22 anos em Brasília, que foi abordado, em parte, nas crônicas “Sobre Não  Tem Remédio”, “Que Fria Madrugada Foi Aquela” e na reflexão “ Oscar Ribeiro de Almeida Niemayer Soares Filho”, escrita por ocasião da morte do arquiteto.
                Dezembro, 1995. O homem retorna a Teresina pensando retomar o curso do caminho interrompido, andando pelas ruas e praças de suas infância, adolescência e juventude, mas se frustra: os paralelepípedos azuis foram cobertos por asfalto; as escolas têm outra arquitetura – mais funcionais, reconheço –  A casa ainda existe resistindo ao tempo e à especulação imobiliária, embora deteriorada; suas janelas e portas foram lacradas, como que para prender a memória do menino que tão forte quanto ela, resiste bravamente.  O Liceu Piauiense continua imponente e sua praça bonita, assim como a João luís Ferreira e a “pê dois”,  com alterações, mas bonitas. O Cine Rex e o Theatro 4 de Setembro ainda estão lá, com novas funções, compondo com o Clube dos Diários o chamado circuito cultural. Mesmo assim continuo amando esta cidade, muito embora, nestes tempos de quarentena ela tenha encolhido... Vou ao portão, de minha nova casa, ponho a cabeça pra fora feito um “rato de gaveta”. Olho em frente, vejo a rua asfaltada e do outro lado um muro bastante alto; olho à direita e tem mais muros e alguns “espigões”; à esquerda, a mesma coisa e sem nenhum pé de castanhola para nos proteger do sol que me parece estar mais próximo...     

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