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| Praça Rio Branco na década de 50 |
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| Ponte Estaiada inaugurada em 2010 |
A. J. de O. Monteiro
Agosto,
1954. O menino, aos três anos, com a ajuda do irmão imediatamente mais velho
empurra o baú de roupas para junto da janela, sobe e alcança o peitoril para
observar a cidade e ganhando, por essa prática, o apelido de “rato de gaveta”.
Sua cidade vai até onde sua vista alcança daquele posto: Um pedaço de rua
calçada com paralelepípedos azulados que ele achava bonito. À sua frente, do
outro lado da rua, um casarão protegido do sol por uma enorme – tudo era grande
aos seus olhos de então – amendoeira que
alguns chamam de castanhola devido, talvez, os seus frutos lembrarem o
instrumento musical das dançarinas de flamenco. Estica o pescoço, olha para a esquerda
e vê mais um pedaço da rua e mais duas ou três casas também protegidas por
amendoeiras; volta o olhar para a direita e tem mais um pedaço de rua; mais
duas ou três casas e mais amendoeiras. Foi dali que o menino viu um homem
correndo, da direita para a esquerda, balançando os braços feito um boneco de
posto de gasolina enquanto gritava: — “Mataram o Getúlio!... Mataram o Getúlio!...
Esta é a mais remota lembrança que o menino tem da sua cidade... Apenas um
pedaço de rua, a Rua da Estrela, onde nasceu.
O
tempo vai passando e o menino vai conhecendo outros pedaços de sua cidade. Levado
pelas mãos dos outros vai à escola – um velho sobrado com assoalho de madeira
que gemia ao ser pisado por ele. A o lado, a Praça João luís Ferreira
ornada por belos fícus e cortada por passeios de seixos.
Já
andando sozinho o agora pré-adolescente vai para o Liceu Piauiense cursar o
ginásio. Em frente ao imponente (mesmo) prédio do Liceu, uma praça que tem nome
de um personagem da política, mas só para constar, pois até hoje é conhecida
como Praça do Liceu que apesar de ter sofrido várias modificações desde que ele
a viu pela primeira vez, continua bonita e agradável. Apenas um barzinho a lhe
quebrar a harmonia. Um prefeito louco (mesmo), construiu aquilo. No ginásio
seus conhecimentos, assim como a cidade, expandiram-se e soube então que
Getúlio não foi assassinado e sim, suicidou.
Naquele
período – do ginásio – foi tempo de futebol, dos jogos intercolegiais, de
salabol (hoje futsal) e das peladas em campos de terra com traves improvisadas
e marcações imaginárias: Brilhante, Matinha, Fiação, Barri e Palha de Arroz que
tinha no centro um gigantesco Angico Branco – mais um adversário a ser driblado
pelo habilidoso (mesmo) craque. Tinha também o campo da Cadeia Pública,
gramado, com marcação real, mas que precisava de autorização para usar e de
cigarros para os detentos, como precaução.
Os
anos foram passando e o futebol deixou de ser o principal interesse do
adolescente... O jogo é outro: as matinês no Cine Theatro 4 de setembro; no
Cine Rex e, mais adiante no Cine Royal, o primeiro da cidade com ar condicionado,
poltronas estofadas e sessão contínua... Após o cinema o lanche na “Bomboniere”
e o volteio na Praça Pedro II, conhecida no meio apenas por “pê dois”. O
volteio consistia num quase balé onde as moças andavam em círculo, no sentido
horário e os rapazes, num círculo maior, em sentido anti-horário. Nesse balé os
olhares se encontravam, sorrisos eram trocados ou rejeitados com “rabanadas”*
demonstrando desagrado. Da praça ao Clube dos Diários finalizar o domingo com a
“tertúlia”, se embriagando de “cuba libre” e confirmar os olhares
correspondidos, dançando de rosto colado ao som da banda “Barbosa Show Bossa”
cujo prefixo era “Creme Batido” do Herb Alpert & Tijuana Brass. À meia noite a banda anunciava,
aos som de assovios de protestos, o fim da tertúlia com o mesmo “Creme Batido”.
Era a hora da dispersão. As moças iam pra casa e os rapazes tomavam o ruma do
casario da Rua Paissandu onde o menino, sob luz difusa, embriagado por estranhos
perfumes e abraçado por braços frios se perdia ao som de boleros bregas
atacados pelo “Regional do Maestro Caquinho” e descobria novas emoções.
Maio,
1973. Um hiato de 22 anos em Brasília, que foi abordado, em parte, nas crônicas
“Sobre Não Tem Remédio”, “Que Fria
Madrugada Foi Aquela” e na reflexão “ Oscar Ribeiro de Almeida Niemayer Soares
Filho”, escrita por ocasião da morte do arquiteto.
Dezembro,
1995. O homem retorna a Teresina pensando retomar o curso do caminho
interrompido, andando pelas ruas e praças de suas infância, adolescência e
juventude, mas se frustra: os paralelepípedos azuis foram cobertos por asfalto;
as escolas têm outra arquitetura – mais funcionais, reconheço – A casa ainda existe resistindo ao tempo e à especulação
imobiliária, embora deteriorada; suas janelas e portas foram lacradas, como que
para prender a memória do menino que tão forte quanto ela, resiste bravamente. O Liceu Piauiense continua imponente e sua praça
bonita, assim como a João luís Ferreira e a “pê dois”, com alterações, mas
bonitas. O Cine Rex e o Theatro 4 de Setembro ainda estão lá, com novas funções,
compondo com o Clube dos Diários o chamado circuito cultural. Mesmo assim
continuo amando esta cidade, muito embora, nestes tempos de quarentena ela
tenha encolhido... Vou ao portão, de minha nova casa, ponho a cabeça pra fora
feito um “rato de gaveta”. Olho em frente, vejo a rua asfaltada e do outro lado
um muro bastante alto; olho à direita e tem mais muros e alguns “espigões”; à
esquerda, a mesma coisa e sem nenhum pé de castanhola para nos proteger do sol
que me parece estar mais próximo...


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