Manoel Emílio Burlamaqui de Oliveira
Viveu,
em Floriano, linda e próspera cidade do Piauí, um velho “coronel”, um de seus
habitantes mais ricos e possuidor de milhares de hectares de terra, que, como
um “Tio Patinhas”, não gostava de gastar, nem consigo próprio, quanto mais com
os outros...
Um
belo dia (esse chavão nos pertence, contadores de causos), aparece em sua
residência, onde o piso era de tijolos, e nem geladeira existia, um de seus
vaqueiros (tinha tanto gado, criado solto, que não havia quem contasse), com um
pedido inusitado: - “Coronel, tem uma onça, andando por minhas bandas, que, de
vez em quando, come uma rês, e eu queria matar aquela bicha, que tá mexendo com
seu gado”. O homem velho levantou-se de sua rede, foi ao seu quarto (enorme) e
voltou, com uma caixinha, cheia de espoletas (pra “lazarinas”, que naquele
tempo, já eram guardadas como antiguidades, lembram-se?), e, entregando-a para
o vaqueiro, de gibão surrado (casaco de couro, usado pelo vaqueiro nordestino
para andar no mato, envelhecido pelo uso) instruiu-lhe: - “vá, meu fio, e faça
o serviço com a maldita, e traga o couro.”
“Mas
coroné, eu quero que vosmincê me dê é uma arma, eu nem possuo espingarda”.
Espantado, retrucou o Coronel, que só de dinheiro a juros, emprestado na Praça,
tinha mais de dez mil contos. -“Cabôco, tu vem aqui me pedir que gaste
dinheiro?” “Tu num te enxerga não?” E, pensando, com a mão no queixo,
filosofou: -“Me devolve as espoletas, deixa essa onça pra lá, que ela fica
véia...”
E,
assim foi feito. Coronel e onça morreram de velhos, acho que a onça depois do
coronel. Ele, de avareza, ela, por essa mesma avareza... Vôte!
(Do livro "De Corpo
Inteiro")

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