segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

O LOUCO MANELÃO: HISTÓRIA E LENDAS

Painel de Arthur Bispo do Rosário


A. J. de O. Monteiro

                Manelão talvez tenha sido o mais popular louco a perambular pelas ruas de Teresina nos tempos de minha infância. Também era conhecido como Avião, mas vou aqui trata-lo como Manelão, pois assim o conheci. Era um louco manso, como se dizia. Nunca se ouviu falar de qualquer atitude agressiva dele contra quem quer que fosse. Contra crianças, então, nem se fala. As crianças eram o público dileto do Manelão que, na verdade era um de nós, só que crescido e dotado de incrível capacidade de nos encantar.
                Era apaixonado por cinema e, até onde lembro, os gêneros preferidos por ele eram os filmes de aventura (de faroeste, de guerras, de piratas, além das aventuras de Tarzan, o rei das selvas). E o gosto pelo cinema, com sua figura pacífica e simpática, lhe valeu o direito de entrar gratuitamente nos dois cinemas da Cidade: o Cine Rex e o Cine Theatro 4 de setembro, ambos no centro. Todos os dias, numa ou noutra sala, aguardava pacientemente em frente a porta de entrada até que o último espectador com ingresso comprado entrasse e o porteiro lhe autorizasse o acesso à plateia onde sentava no chão alinhado com a primeira fila de poltronas, absolutamente concentrado. Não se alterava nem mesmo quando a assistência acompanhava a música de entrada da sessão batendo, no ritmo, com os pés no assoalho – isso no 4 de setembro que tinha esse tipo de piso (creio que ainda tem). Ao final da sessão era também o último a sair. O público, principalmente a meninada, formava grupos na Praça Pedro II, em frente aos cinemas, para a tradicional resenha da aventura que assistiram. Manelão saia de cena e ia, não se sabe pra onde, talvez dormir nalgum canto ali perto, que lhe oferecesse proteção do sereno.
                Nas manhãs Manelão costumava abrigar-se do escaldante sol equatorial sentado sob a sombra de uma árvore na Praça do Liceu (Liceu Piauiense) e ali ficava com as pernas estendidas e roçando o dedão do pé no indicador, o que provocava um ruído até certo ponto incômodo aos ouvidos e só parava com o estranho cacoete quando sua plateia se formava: Éramos nós, que mesmo tendo assistido ao filme, não abríamos mãos da narrativa detalhada do Manelão. Ele descrevia os personagens desde os traços fisionómicos até o vestuário com incrível precisão. Também imitava fielmente toda a sonoplastia dos filmes: nos faroestes os tiros, o sibilar das balas, o tropel dos cavalos e os gritos de guerra dos índios; ao imitar o Tarzan chamando os seus amigos animais, o fazia melhor que o intérprete. Nos filmes de guerra ele reproduzia com extrema fidelidade as explosões das bombas, o matraquear das metralhadoras e o ronco dos motores dos aviões, distinguindo os bombardeiros dos caças (daí veio, acredito, o segundo apelido: Avião)
                Esse era o Manelão: louco, simpático, pacato e divertido.

                Depois de algum tempo começaram colocar em dúvida o caráter do Manelão. Corriam histórias de que ele roubava... Que nas proximidade das festas de fim de ano andava pelas ruas residenciais assoviando alto para estimular grugulejo dos perus e a casa onde um peru grugulejava, em resposta ao estímulo, era visitada por ele, a noite, para roubar a ave e revende-la, as vezes, à própria vítima. Nunca acreditei nisso pois ele nunca foi visto vendendo perus, fosse em que época fosse. Além do mais Manelão não tinha a menor noção de dinheiro, nunca o vi com cruzeiro (moeda da época) nas mãos. Comia e vestia o que lhe davam. Outra história – e essa mais inverossímil ainda, conta que no lançamento de um filme de grande apelo de bilheteria – não lembro qual – ele teve seu ingresso barrado sob a alegação de que a “avant première” era exclusiva para as autoridades federais, estaduais, municipais, eclesiásticas e membros da alta sociedade. Contou-se que ele não protestou, mas saiu amuado e fazendo ameaças. Difícil de acreditar. Ele não tinha índole vingativa.
                No dia seguinte, na primeira sessão aberta ao público em geral, a casa encheu, mas ninguém viu o Manelão. O burburinho era grande e a ansiedade estava estampada no rosto de cada um na plateia enquanto na sala de projeção a preocupação e a angústia eram totais. “Cadê as latas com a película”? Gritava um; enquanto outro respondia: “guardei na prateleira após o encerramento da sessão de ontem”. Ninguém se entendia e as latas não apareciam. Vasculharam canto por canto e nada. O público já se exasperava vaiando, assoviando e batendo com os pés no assoalho. O dono da sala foi chamado e, posto a par do problema e sentido risco de um desastre resolveu chamar o delegado que veio acompanhado de alguns policiais para evacuar a plateia, o que foi feito ordeiramente com a explicação que houvera um “problema técnico” e sob a promessa de ressarcimento do valor dos ingressos ou a revalidação, assim que o problema fosse resolvido. Tudo acalmado começaram a investigação seguindo o protocolo policial. Nada foi encontrado; nenhuma pista, nenhum sinal de arrombamento o que indicava participação de gente de dentro da casa. Todos os funcionários foram interrogados sem que nada de esclarecedor fosse dito, até que o porteiro lembrou do incidente com o Manelão. “Ah! – exclamou o delegado – caso resolvido, foi ele”. Dalí saíram em diligência em busca do “meliante” e logo o encontraram nas imediações do Mercado Central – seu ponto de alimentação. Levaram-no aos safanões, mesmo com o protestos dos demais frequentadores da feira. Na delegacia, interrogado, negou ser o autor do furto; negou até que os “sutis e delicados” métodos interrogatórios aplicados o fizeram confessar. Ordenaram que os levassem ao local onde escondera o produto do furto, mas Manelão se negou obedecer. Nova sessão “persuasiva” até o coitado concordar, não em leva-los, mas em fazer um mapa, como nos filmes de piratas, indicando a localização das latas. Os agentes seguiram as instruções do papel e encontraram as latas exatamente no ponto assinalado com um X.
                Não acredito em nada disso, pelas razões que expus. O fato real é que Manelão foi barrado na sessão de “avant première” e ficou triste, triste de chorar, dizem os que presenciaram a cena. Daí uma mente maliciosa e inventiva desenvolveu essa trama toda criando uma lenda em torno da figura do louco. O certo é que ele não foi ladrão, não tinha índole vingativa, mas tinha sentimentos que foram feridos quando lhe negaram o ingresso, naquele dia. Dali em diante nunca mais foi visto pelas portas dos cinemas, passando a viver seus delírios nas águas do rio Parnaíba, lutando contra imaginários crocodilos para salvar sua imaginária Jane. E numa dessas lutas – dizem – o querido louco, já velho e debilitado desapareceu nas águas barrentas do rio para nunca mais ser visto.

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