Marcelo D'Alencourt
O
ano é 1985. Estudo muito para o vestibular ouvindo "Química " do
Paralamas. Um grande amigo foi agraciado pela mãe com uma brasília laranja. O
carro já era meio antigo, mas tudo bem... Um belo dia, estava concentrado nos
meus estudos quando, de repente, toca o
telefone. Era o irmão dele, muito nervoso : "Vem pra cá agora. Aconteceu
uma catástrofe! ". E desligou. Nem deu tempo de perguntar o que tinha
rolado. Imediatamente, larguei tudo e, atônito, parti pra casa do amigo, sem
saber o que encontraria por lá. Ao passar na rua, observo a sua brasilia
laranja enfiada num canteiro de obras. Corro pra lá, mas não avisto o amigo.
Bom sinal. Se safou, pensei. Caminho pro prédio dele e vejo, na portaria, uma
meia dúzia de trabalhadores de obra, gritando: "Assassino! ". Fiquei
estupefato. Será que tinha morrido alguém?!? Perguntei a mim mesmo e subi
rapidamente pro ape do camarada. Lá chegando, me deparo com o seguinte quadro:
o irmão dele observando a "manifestação " embaixo, de cortinas
fechadas. O amigo? Sentado, com cara de velório. Perguntei o que tinha ocorrido. O irmão fecha
a cortina e diz: "Esse louco entrou com o carro no canteiro de obras e
derrubou os rapazes lá de baixo". Nossa, pensei. Que situação. Viro pro
amigo e pergunto se alguém tinha se machucado. Antes dele responder, o irmão se
adianta: "Não. Todos bem. Um milagre divino!". Respirei profundamente
aliviado. Estavam todos bem. O problema é que a "manifestação "
queria subir pra pegar o meu amigo. Sugeri que ficássemos ali quietinhos,
aguardando os acontecimentos. O tempo passou e foram embora. O irmão? Continuava escondido observando a rua por
detrás da cortina fechada. Ficamos mais de uma hora no mais absoluto silêncio.
O irmão vira então e diz: "Dessa você se safou, mas saiba que você é um
perigo nas ruas! Vou falar com a mamãe pra pegar o carro de volta!". O
problema todo era que aquele resto de carro era o meio de transporte da
galera. Não podia ser devolvido desse
jeito. Tentei falar alguma coisa, mas
não me veio nada...E o momento não era muito propício. Olho pro amigo e vejo um sorriso inicial na
sua face. Me dá vontade de rir também.
Era tudo o que não podia acontecer. O irmão percebeu e logo indagou:
"Tão rindo de quê?" Pronto, aí a gargalhada foi geral. Sempre rio
quando fico nervoso. Neruda dizia que há dois tipos de homem, o que gargalha e
o que não gargalha. Tô na primeira galera. Graças ao bom Deus! Na escola, era o
primeiro a ser suspenso. Besteira, bagunça, inspetor, eu ria e...suspensão.
Claro que tomava puxões de orelha homéricos da minha santa maezinha. No final nem me suspendiam mais. Bem,
voltando, a situação ficou bem menos tensa e o irmão resolve sair da sala, mas
antes fala: "Vou pedalar pra relaxar!" Nós só ríamos e ele arrematou:
"Não sei qual é a graça.
Irresponsável!". E se foi. O
problema é que ele não era ciclista e
tinha cismado de ser. Já tínhamos esquecido dele quando volta todo fantasiado.
Estava hilário. Definitivamente não combinava com a figura. Pegamos as bikes na
garagem e fomos pro elevador. O irmão dispara: "Estão com medinho? Homem mesmo desce é pela rampa!". Achei
que estivesse brincando. Ainda tentei argumentar com ele, mas estava
irredutível. O prédio era altíssimo e a garagem era daquelas em caracol, muito
íngremes e fechadas. Não tinha como dar certo. Ele pegou sua caloi dez zerada
(lembram?), respirou fundo, olhou pra gente e, num átimo de coragem, deu o
impulso derradeiro em direção a rampa. Não acreditei. Fechei os olhos e contei.
Claro, logo em seguida, um grito de desespero : "Socorro! " e cabruuuuum. Bateu forte e seco na parede, indo
irremediavelmente ao solo. Corremos pro
local. Ele estava deitado no chão com a bicicleta em cima. Não tinha se
machucado. Novas e muitas gargalhadas e ele ordena: "Parem de rir e me
ajudem, p...Não consigo levantar!". Mais e muitos risos... Claro que a
pedalada não rolou. A bicicleta? Desde
então não está mais entre nós. Passados alguns anos, o irmão convida pro seu
casório. Festa bonita, comes e bebes,
enfim, repentinamente ele me puxa pelo braço e me diz o seguinte: "Cara,
me salva, o casal que ia dizer algumas palavras ainda não chegou e tá todo
mundo meio bêbado. Como você é o mais sério e tá de terno e gravata, poderia
dizer algo? " Respondi que sim. Jamais me esqueci disso. Eu, sério?!? Só
ele mesmo. Não precisei falar, pois o casal chegou. Ainda bem. Já estava meio
alto também. Mas, depois de tanto tempo, escrevo esse singelo
"discurso" pro grande irmão do amigo que infelizmente já se foi...

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