sexta-feira, 3 de julho de 2020

A BRASÍLIA LARANJA



Marcelo D'Alencourt

                O ano é 1985. Estudo muito para o vestibular ouvindo "Química " do Paralamas. Um grande amigo foi agraciado pela mãe com uma brasília laranja. O carro já era meio antigo, mas tudo bem... Um belo dia, estava concentrado nos meus estudos quando, de repente,  toca o telefone. Era o irmão dele, muito nervoso : "Vem pra cá agora. Aconteceu uma catástrofe! ". E desligou. Nem deu tempo de perguntar o que tinha rolado. Imediatamente, larguei tudo e, atônito, parti pra casa do amigo, sem saber o que encontraria por lá. Ao passar na rua, observo a sua brasilia laranja enfiada num canteiro de obras. Corro pra lá, mas não avisto o amigo. Bom sinal. Se safou, pensei. Caminho pro prédio dele e vejo, na portaria, uma meia dúzia de trabalhadores de obra, gritando: "Assassino! ". Fiquei estupefato. Será que tinha morrido alguém?!? Perguntei a mim mesmo e subi rapidamente pro ape do camarada. Lá chegando, me deparo com o seguinte quadro: o irmão dele observando a "manifestação " embaixo, de cortinas fechadas. O amigo? Sentado, com cara de velório.  Perguntei o que tinha ocorrido. O irmão fecha a cortina e diz: "Esse louco entrou com o carro no canteiro de obras e derrubou os rapazes lá de baixo". Nossa, pensei. Que situação. Viro pro amigo e pergunto se alguém tinha se machucado. Antes dele responder, o irmão se adianta: "Não. Todos bem. Um milagre divino!". Respirei profundamente aliviado. Estavam todos bem. O problema é que a "manifestação " queria subir pra pegar o meu amigo. Sugeri que ficássemos ali quietinhos, aguardando os acontecimentos. O tempo passou e foram embora. O irmão?  Continuava escondido observando a rua por detrás da cortina fechada. Ficamos mais de uma hora no mais absoluto silêncio. O irmão vira então e diz: "Dessa você se safou, mas saiba que você é um perigo nas ruas! Vou falar com a mamãe pra pegar o carro de volta!". O problema todo era que aquele resto de carro era o meio de transporte da galera.  Não podia ser devolvido desse jeito.  Tentei falar alguma coisa, mas não me veio nada...E o momento não era muito propício.  Olho pro amigo e vejo um sorriso inicial na sua face. Me dá vontade de rir também.  Era tudo o que não podia acontecer. O irmão percebeu e logo indagou: "Tão rindo de quê?" Pronto, aí a gargalhada foi geral. Sempre rio quando fico nervoso. Neruda dizia que há dois tipos de homem, o que gargalha e o que não gargalha. Tô na primeira galera. Graças ao bom Deus! Na escola, era o primeiro a ser suspenso. Besteira, bagunça, inspetor, eu ria e...suspensão.
Claro que tomava puxões de orelha homéricos da minha santa maezinha.  No final nem me suspendiam mais. Bem, voltando, a situação ficou bem menos tensa e o irmão resolve sair da sala, mas antes fala: "Vou pedalar pra relaxar!" Nós só ríamos e ele arrematou: "Não sei qual é  a graça. Irresponsável!".  E se foi. O problema é  que ele não era ciclista e tinha cismado de ser. Já tínhamos esquecido dele quando volta todo fantasiado. Estava hilário. Definitivamente não combinava com a figura. Pegamos as bikes na garagem e fomos pro elevador. O irmão dispara: "Estão com medinho?  Homem mesmo desce é pela rampa!". Achei que estivesse brincando. Ainda tentei argumentar com ele, mas estava irredutível. O prédio era altíssimo e a garagem era daquelas em caracol, muito íngremes e fechadas. Não tinha como dar certo. Ele pegou sua caloi dez zerada (lembram?), respirou fundo, olhou pra gente e, num átimo de coragem, deu o impulso derradeiro em direção a rampa. Não acreditei. Fechei os olhos e contei. Claro, logo em seguida, um grito de desespero : "Socorro! " e cabruuuuum.  Bateu forte e seco na parede, indo irremediavelmente  ao solo. Corremos pro local. Ele estava deitado no chão com a bicicleta em cima. Não tinha se machucado. Novas e muitas gargalhadas e ele ordena: "Parem de rir e me ajudem, p...Não consigo levantar!". Mais e muitos risos... Claro que a pedalada não rolou. A bicicleta?  Desde então não está mais entre nós. Passados alguns anos, o irmão convida pro seu casório.  Festa bonita, comes e bebes, enfim, repentinamente ele me puxa pelo braço e me diz o seguinte: "Cara, me salva, o casal que ia dizer algumas palavras ainda não chegou e tá todo mundo meio bêbado. Como você é o mais sério e tá de terno e gravata, poderia dizer algo? " Respondi que sim. Jamais me esqueci disso. Eu, sério?!? Só ele mesmo. Não precisei falar, pois o casal chegou. Ainda bem. Já estava meio alto também. Mas, depois de tanto tempo, escrevo esse singelo "discurso" pro grande irmão do amigo que infelizmente já se foi...

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