Juana Lucini
A
cultura na Austrália é bem diferente do Brasil. São maneiras de ver o mundo,
socializar, compartilhar que nos são estranhas. Um dos estranhamentos é o
compartilhamento da comida. Aqui cada um traz seu tiquinho de café, seus
saquinhos de chá, seu pão etc. Cada geladeira é um emaranhado de diferentes
margarinas, patês, frutas, marmitas e outras coisas deixadas para trás. Ninguém
toca no que não é seu e todos lembram exatamente o que é seu naquela confusão.
Não há como ter pouca memória nesse ambiente social.
Quando
eu cheguei, por exemplo, pensei que podia pegar qualquer chá que estivesse na
prateleira. Eu já trabalhei em outros escritórios em que ao retornar de viagem
os colegas traziam quitutes para deixar na oficina. Até deixei uma caixinha de
cidreira que eu trouxe do Brasil por lá. Estava enganada, eu tomei sozinha o
chá de cidreira, mesmo tendo insistido para as pessoas experimentarem.
Dito
isso, o meu segundo choque foi o congelador da geladeira do escritório. Para
deixar menos a vista o que estão comendo, as pessoas colocam lá qualquer coisa
que trazem. Eu fiquei surpresa em ver as pessoas chegando com um sacão de pão
fresquinho e congelando imediatamente. As pessoas trazem sacos inteiros e
fechados que colocam lá de uma vez: pão, banana, chocolate, arroz, qualquer
coisa. Outro detalhe é que elas deixam nestes sacos escuros de supermercado
(aqui são cinza escuro) as coisas que congelam, deixando o congelador um
submundo de sacos cinzas com coisas obscuras dentro.
Lógico
que ainda há as fofocas de corredor “tem alguém que só come torta de maça, todo
dia traz a mesma caixa de torta congelada, como aguenta?”, “ela trouxe um saco
de chocolate porque parou de beber e precisa de mais açúcar no sangue”, “quem
bebe leite de amêndoas aqui?”.
Também
há os desafios da louça suja num lugar onde não há faxineiras nem copeiras.
Teoricamente cada um lava o seu ou coloca na máquina de lavar louça, mas também
há quem deixe as xícaras em cima da mesa por dias, semanas, meses e depois
aquele resto de café que ficou no fundo nunca vai sair e você vai pegar a
xícara e ficar com nojo ou você não vai ter coragem de tocar na bucha que está
nojenta de tão suja e vai trazer um copo térmico para você beber suas coisas
sem ter que usar muito a louça do escritório.
Ou você lava tudo com água quente sem sabão. Ou você espera a máquina
rodar e pega o que está fresquinho lá dentro, torcendo para não ter restos nos
fundos das xícaras ou você desiste de tudo e volta correndo pro Brasil onde o
garçom vem uniformizado te servir café quentinho em toda reunião que você está.

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